2009/07/11

Amigo, amiga


Chamo-te meu amigo
Minha amiga
Não porque sejas
Propriedade minha
Mas porque és querido
Ou querida
Do meu coração
.
A amizade consciente
Não aprisiona
Tampouco se apropria
Apenas ocasiona
Partilha de êxito ou frustação
De tristeza ou alegria
.
Sentimento nobre
Ternurento regaço
Ombro providencial
Beijo ou forte abraço
Qualquer gesto ou rito
Sejas rico ou pobre
Está ao teu alcance
Aproveita, pratica, confia
.
Abre o teu peito
E deixa-te levar
Por esta sensação
Que me propicia
Além de lágrimas ou riso
Além da homeostasia
Uma passagem segura
Para a paz de espírito
Qual sombra reconfortante
De árvore no calor do verão
Ou lago cristalino de água pura
.
Verinha, São Leopoldo (Brasil) e mulher lua, a quatro mãos
.

2009/07/04

Saltando muralhas


Crianças ainda
tal qual super homem
Somos capazes de voar sobre o mundo
Vencemos qualquer barreira
Conquistamos tudo de forma mágica
Num piscar de olhos
.
Quando jovens
Somos fortes e poderosos
Capazes de correr, saltar, pular obstáculos
Mesmo nas dificuldades imensas
Tudo fazemos para atingir
Os mais audaciosos objetivos
.
Na maturidade
Sabemos que somos menos
Do que pensávamos
Os nossos alvos são readequados
À nova estrutura física e mental
.
Na velhice
Contabilizamos perdas e lucros
Vemos corpo e forças a definhar
As possibilidades a estreitar
Adequamo-nos a outra realidade
.
Termos um tecto para morar
O amor da família a nos amparar
A reforma a manter-nos
Dá-nos a noção de como somos
Bem aventurados
.
Carmen, São Paulo (Brasil)
.

2009/06/30

Fugaz

Resposta ao desafio da Carmen
*
*
*
Aos saltos no crepúsculo
Passo pela vida
Evitando ferida
*
*
*

2009/06/27

Jogar no escuro

.
Pairar fora da rede
Não é de aconselhar
Quem vive sem rede
Acaba por se quebrar!
.
Quem sem rede vive
Sabe que cairá
Em queda livre
.
Questão de escolha:
Ou se tem rede
E vive-se seguro
Ou sem ela
Dá-se um mergulho...
No escuro!
.
Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

Alienação


*
Oh! Quem me dera deitar
Não sair da horizontal
Sem chão, tecto ou paredes
Não sentir a terra rodar
Na demência habitual
*
E, sem me inquietar
Com guerras, fomes ou sedes
Em alheamento total
Pairar fora das redes
Do controlo social
*

2009/06/24

S. João do Porto, o ano inteiro



O Porto está a ficar velho
É preciso um Porto novo
Aqui vai meu conselho:
Dêem o Porto ao povo!
.
In "Abram o rio, abram o mar", Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

2009/06/18

Pudor


Na minha cozinha, pela janela
Vejo uma rosa branca, tão bela
Perfumada, adorável companhia
Sem ela, tão feliz não estaria
.
Esta flor menina, entreaberta
Revive em mim e desperta
Uma mocidade não vivida
Por tanto sofrimento infligida
.
Sinto-me a donzela de branco
À espera do amor, puro e franco
Contendo o arroubo do desejo
.
Com lábios medrosos, entreabertos
Que, timidamente, temem ser descobertos
Fogem, escondem-se em recatado pejo
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

2009/06/13

Uma opinião como outra qualquer

Circula na Net o relato de uma professora de matemática que vou transcrever, para a partir dela podermos desenvolver algum raciocínio objectivo.
O exemplo dado não é mais do que o relato, feito por imagens, da evolução do ensino da matemática em primeiro lugar e das demais disciplinas em particular em Portugal.
Foi um episódio passado num supermercado que deu origem a ao “desabafo” daquela Senhora Professora. Quando entregou à balconista 2 euros e mais 8 cêntimos para pagar uma despesa de 1,58 euros, para facilitar os trocos e esta teve que chamar o gerente que se viu aflito para conseguir explicar-lhe que só tinha que devolver 50 cêntimos.
Escreveu então:
-1. Ensino da matemática em 1950:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda. Qual é o lucro?
-2. Ensino de matemática em 1970:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda, ou seja, € 80,00. Qual é o lucro?
-3. Ensino de matemática em 1980:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é € 80,00. Qual é o lucro?
-4. Ensino de matemática em 1990:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é € 80,00. Escolha a resposta certa, que indica o lucro: ( ) € 20,00 ( ) € 40,00 ( ) € 60,00 ( ) € 80,00 ( ) € 100,00.
-5. Ensino de matemática em 2000:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é € 80,00. O lucro é de € 20,00. Está certo?( ) SIM ( ) NÃO
-6. Ensino de matemática em 2008:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção é € 80,00. Se você souber ler coloque um X no € 20,00. ( ) € 20,00 ( ) € 40,00 ( ) € 60,00 ( ) € 80,00 ( ) € 100,00.
Porque entrei para a escola primária em 1943, nos anos 90 dei aulas numa escola militar e até hoje tenho seguido o percurso escolar dos meus netos, encontro nesta elucidativa apresentação o retrato fiel da evolução do ensino no nosso país. Como não é a primeira vez que referindo-me a este assunto, coloco o treino do raciocínio em primeiro lugar em detrimento do treino da memória (ó cabos, ó rios e seus afluentes, ó linhas férreas e ramais, ó capitais de distrito e cidades, ó serras), não posso deixar de afirmar que ao menor esforço de memória deveria ter correspondido maior adestramento do raciocínio ao invés da sua quase anulação, como demonstrado neste elucidativo relato.
Se a integração europeia nos colocou perante a obrigação de cumprir metas no que respeita ao aproveitamento escolar o caminho a seguir devia passar por revolucionar os métodos de ensino e/ou aprendizagem, adaptar os currículos às necessidades numa perspectiva de futuro, não difícil de prever e reciclar a classe docente com métodos modernos de técnicas de instrução, que sem impedir a liberdade de improvisação dos professores pudesse melhorar a sua transmissão de conhecimentos.
O facilitismo foi a palavra de ordem. O coeficiente do aproveitamento escolar subiu e aproximou-se dos níveis Europeus.
Melhorou por acaso o ensino? Ou dizendo de outro modo: Os alunos acabam os seus cursos mais bem preparados?
.
António Mata, Algueirão-Mem Martins (Sintra)
.

2009/06/09

Estações


Imagem do filme: Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera
Realização: Kim Ki-duk (2003)


Sou estação de dias
Os chegados, vividos
Os vividos, partidos
De mim emigrados.
No cais, fico à espera do futuro...
.
.
In "Dias", Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

2009/06/08

Adormecer


Adormecer
Na quietude da noite
Só para poder te ver
Te encontrar
Nos meus sonhos
Onde és tão presente
.
Adormecer
E sentir o pousar leve
Da tua mão macia
Pulsante carícia
A deslumbrar-se na luz
Da Lua cúmplice
.
Adormecer
Invisível
Faço-me bruma
Perfumada de manacá
A suavisar teu corpo
Em gentis carinhos
.
Adormecer
Em conjunção serena
Sem perturbar teu sono
Na despedida sem dor
Vestida de verdesperança
Sem o cansaço do voltar
.
Adormecer
Meditativa na busca
Da estrela do teu olhar
Esperar a partida do dia
Renascer quando a noite vem
Na sede do mel do teu beijo
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

2009/06/06

O marmanjão

Sobremesa preparada pelo Marmanjão
no dia dos Namorados (14/02/2009)
para a Marmanjinha
*
*
Quase me apeteceu tecer um comentário apreciativo, quando ele, sem preconceitos de espécie alguma, confessou que gostava dela como nunca gostara de nenhuma outra. Nem de nenhuma daquelas com quem casara e tivera até filhos. Tinham sido duas sucessivas a dormir com ele na cama, durante o tempo em que andou atado pelos nós. Um deles sagrado, como exigiam as circunstâncias: casamento tinha de ser pela igreja. Era para o laço não se desprender com facilidade.
E agora, ali, com o sol a bater-lhe na cara, enquanto a enlaçava pela cintura, junto à praia, confessava perante uma multidão que, de vez em quando, até tinha ciúmes dela. Imaginasse-a com outra pessoa e logo um bichinho malévolo lhe corroía o coração, deixando-o mais picado do que um batalhão de traças quando resolvem atacar boa fazenda. Nunca lhe tinha acontecido e foi quando soube que, finalmente, estava irremediavelmente apaixonado. Ela já não era muito jovem, mas conseguia, como nenhuma outra, arrancar poesia e música das cordas da sua sensibilidade de homem maduro, desencantado durante demasiado tempo com o amor. Até que ela surgiu. Foi um acaso que os colocou frente a frente. Na altura sentia-se como um moribundo, um náufrago a quem ela lançou com afinco uma tábua de salvação. Agarrou-se com esperança.
Agora, ali, junto à praia, enlaçando a mulher pela cintura, era enternecedor ver aquele marmanjão de meia-idade a confessar em público o seu amor, trazendo à memória dos presentes o velho ditado sobre o amor e sobre a idade. Nunca é tarde. Tinha sido por causa disso que se divorciara da última companheira. Dormir na cama com uma e amar outra era uma traição que já não suportava mais. Nem que deixasse de ter na cama todos os dias uma mulher para passar a ter uma outra que só podia ter de vez em quando.
Fora uma agradável surpresa verificar que aquele homem, considerado por muitos irascível e fanfarrão, não passava de um romântico camuflado num metro e oitenta de altura, que rondava o tímido e quase o bonacheirão. Fora um tiro certeiro, uma seta enfeitiçada de amor que o deixara naquele estado de enamoramento em que o toque de campainhas de portas se assemelhava a melodias de festa tocadas por harmoniosos sinos de carrilhão. Era o amor. E o amor é: dormir uma noite com ela quando essa noite vale por sete…Ou por uma vida…
Depois, ficou a lembrança de uma pequena história, que hoje me apeteceu contar assim como um tirinho…
.
Rafaela Plácido, em dia de bonança e esperança
.

2009/06/01

Algures, em S. Paulo, daqui a 50 anos...


O meu outono chegou
Antes do tempo.
*
Quando percebi,
As folhas do livro
Da minha vida
Flutuavam pelo ar
E espalhavam-se pelo chão...
*
Então, antes que alguém
As pisasse
Ou seu conteúdo
Se perdesse para sempre,
Decidi passá-las a limpo
Em livro novo.
*
E, entre folhas secas e amassadas,
Encontrei vocês que me sorriam...

.
Neli, São Paulo (Brasil)
.

2009/05/30

Menino ou menina...



Cresce dentro de mim,
qual ervilha ou feijão,
mas já ocupa um lugar,
dentro do meu coração!!!

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Isis, Lady of the Hour (Matosinhos)
.

2009/05/20

Auto-conhecimento

*
*
Melhor amigo não tenho
Que a própria consciência
É com ela que me avenho
No bem e na indecência
*
*
In Consciência amiga, Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

2009/05/19

A gorda

A casa apresentava alguns defeitos de construção. O ralo da cozinha estava submerso debaixo do fogão, que era em canto. O escoadouro tinha de ser adivinhado. Usado é que nunca.
Foram indicações da dona, quando comprou o apartamento, ainda em construção, e ninguém soube ou não quis alertá-la para algumas impossibilidades técnicas em satisfazer as exigências dela. Foi por isso que o futuro lhe trouxe problemas. Ela quis a cozinha assim e, bajulada pelo comprador teve-a assim mesmo. Mais do que complicada, a construção da casa, ao menos em alguns sítios, era arrevesada.
Depois, era o marido que se estava nas tintas para um sem número de coisas: um prego que se solta, a silicone que, de repente, começa a deixar vazar. Coisas assim, como a caixa eléctrica que, desde o nascimento da casa, ficou soterrada na parede do quarto de banho, sob o espelho, e quando os circuitos eléctricos entraram pela primeira vez em colapso, lá teve que funcionar um grosso íman para arrancar o vidro e fazer o necessário conserto na electricidade.
Desta vez era o gás. A cidade adoptara recentemente as condutas debaixo da terra para conduzir a todos os lares esse invisível e mortífero fluído e quem quisesse aderir ao novo sistema tinha de recorrer a uma empresa para transformar o miolo de aparelhos como o esquentador e o fogão, adaptando-os às exigências do novo combustível.

O prédio inteiro tinha-se decido por esta nova comodidade, numa das últimas reuniões de condomínio e o marido dela, dessa vez, também presente. Não foi contra. Era menos uma preocupação. Andar de bilha para cá e para lá já não dava com nada, ele que sempre morreu por não fazer nenhum. Para isso lá estava a escrava. O jantar aparecia feito sobre a mesa, na gaveta tinha sempre cuecas, meias e peúgas lavadas. Era o que a mulher fazia, enquanto se sentia engordar e depois o marido lhe atirava isso à cara, quase com desprezo. Chamava-lhe velha e gorda, sobretudo quando chegava do treino semanal das corridas à beira-mar com os amigos, a cheirar a suor, faminto e a reclamar o almoço. Era uma acusação por ela não ter tempo para essas frescuras.Quando soube que os homens do gás tinham de ir lá casa fazer as transformações necessárias, como sempre, delegou na mulher a responsabilidade de estar presente.
Ela que andava há tempos a remoer sobre a foca que tinha em casa, deitada constantemente no sofá a fazer zapping na televisão e sobre os seus desatinos, desencadeados quase desde o início. Sentia, mais do que nunca, que o casamento de ambos fora um consórcio a prazo e o divórcio luzia no horizonte mais forte do que um pirilampo brilhando na escuridão da noite. Era apenas uma questão de tempo, até ela chegar àquele limite de quando já não há mais volta e quando o caminho, dessa vez, tem de ser para a frente e sem recuo. Não devia deixar-se influenciar pelas reconciliações do passado, que nunca a tinham levado a lado nenhum.
Os homens que iam tratar dos electrodomésticos tocaram-lhe à campainha, mal entrou em casa, depois de sair um pouco mais cedo do emprego. Eram dois, um deles um brasileiro que nunca perdera, nem o sotaque nem a sedução em que os brasileiros são exímios.
Depois, o outro, o português, vendo a carga de trabalhos que o colega tinha pela frente, tratou de dar à sola, propondo-se voltar apenas quando tudo já estivesse solucionado. Nessa altura ela não teve consciência da gravidade das coisas. Mas, aos primeiros sinais de que nada iria ser fácil tratou de avaliar a situação.
Mal o brasileiro arrancou o fogão, pelo buraco que ficou à mostra, viu um mar de azeite que se tinha escapulido pelo silicone já gasto e foi sem perda de tempo que se muniu do balde, da água, do detergente de limpeza e dos esfregões de arame, enquanto, deitada de barriga sobre a lura aberta, começava a escanhoar o lixo até ao vértice do triangulo, formado pela implantação do fogão, que, não fora a transformação do equipamento, morreria ali até às ruínas da casa, quando a civilização deixasse cair as construções, como se tudo fosse um imenso Coliseu igual ao de Roma, demolidas pelo terramoto dos tempos. E o brasileiro ali a mirar-lhe o traseiro, enquanto ela, certa, entre outras coisas, de estar a atrasar o já difícil trabalho ao homem, lhe pedia desculpa, obtendo como resposta que, só pela visão, tudo estava a valer a pena. Incluindo o atraso.
E ela ali, sem poder recuar na tarefa que num Natal passado fora congeminada pelo acaso e que um dia teria de resolver. Tudo ocorrera numa ocasião em que derramara ali por descuido quase uma garrafa inteira de azeite. E, por agora, não lhe restava outra alternativa senão limpar e limpar, fingir-se inocente e ignorar a cantada.
Na altura, quando a garrafa se partira, lembrava-se de ter pensado no mito urbano que atribui azar ao facto de se verter azeite, mas hoje, ali e agora, via claramente que, azar, azar foi mesmo o ter de limpar aquele mar de lodo e gordura. Ainda por cima, com um brasileiro sedutor a admirar-lhe o traseiro, encantado com aquele bodo erótico que lhe aparecera pela frente sem ninguém contar. Para ela, todo o resto eram pormenores irrelevantes. Era preciso resolver aquilo.
A seguir, o trabalho do homem complicava-se, como se previa, e foi quando ela percebeu que se prolongaria até à eternidade caso não tomasse providencias. Já constatara que era tecnicamente impossível uma criatura sozinha levar a bom porto aquele imbróglio que o construtor deixara na cozinha para sempre. Uma vez que o seu traseiro já se insinuara o suficiente junto do brasileiro, pensou que exibi-lo mais uns instantes não iria fazer diferença.
O que queria era, o mais rapidamente possível, ver tudo no sítio outra vez, e foi de mangas arregaçadas que se meteu de novo no buraco, ditando a sugestão: era necessário que uma mão segurasse na curta ficha do fogão, lhe atasse um fio e que outra mão agarrasse o dito fio, no outro lado, de onde as gavetas do armário já haviam sido removidas e em que o buraco se via, depois do corte que os construtores de armários tiveram de lhe fazer para que a tomada ficasse acessível e utilizável. E a mão dela era a mais pequena. Espapaçada no buraco, com as pernas sobre o cimo do fogão que, entretanto, tivera de ser aproximado mais um pouco da entrada por causa do pequeno comprimento do fio eléctrico, o chão estava agora todo ocupado e ela não tinha outro sítio para por as pernas senão a parte superior do malfadado fogão.
Naquela estranha posição, depois dos detergentes para remover a gordura, sentiu as mãos deslizarem sobre azulejo do chão, começando a perder o equilíbrio, enquanto pedia ao homem um pano seco. Teve de lhe indicar o sítio onde o ir buscar. E, quando a primeira dificuldade ficou sanada, disse-lhe para prender um cintinho delgado de umas calças velhas lilás na ficha que, quiseram as coincidências e a providência divina, esteva mesmo ali à mão de semear, no cesto vazio da fruta.
O brasileiro, enquanto obedecia, perguntava-lhe se ela não estava a machucar-se e, finalmente, ele do lado das gavetas e ela do lado do buraco do fogão, mais a sua mão pequena, com a tira segura, as mãos de ambos encontraram-se, até já não mais ser possível perder-se a ficha presa a lilás, lá do outro lado da mão brasileira. A ponta da tira, do lado das gavetas, dava ao fio comprimento suficiente para a próxima ligação à tomada, quando ela saísse do buraco, de barriga para baixo como sempre estivera, e o fogão se lhe ajustasse para as ligações finais.
Havia que sair daquela posição de sapa, recuando como um caranguejo, ali com o chão a escorregar-lhe outra vez debaixo das mãos, enquanto perdia o equilíbrio.A situação era de risco e salvá-la daquele chão escorregadio tinha mais a ver com bombeiros do que com especialistas de electricidades, gás e esquentadores. Contudo, só estavam ali os dois e o homem, sem fazer o pedido de autorização - as circunstâncias não eram de molde a perder tempo - puxou-lhe as pernas, começando desde o calcanhar até cima, com o cuidado de quem está numa cama a acariciar uma mulher por quem estivesse apaixonado, sem que ela pudesse aconselhá-lo a ter calma com o andor.
No fim, quando já estava de pé, o brasileiro que ainda não tinha perdido o sotaque, olha-a com olhos de carneiro mal morto e diz-lhe, naturalmente:
- Sabe, a senhora me excitou, viu!?… Desculpe… Não fiz por mal…
Com um sorriso irónico a bailar-lhe, não tanto na boca como na cabeça, entendeu desvalorizar a questão, enquanto o homem prosseguia a seguir com o trabalho. Depois, sempre divertida, deu consigo a lembrar-se do marido foca que passava os dias no computador a fazer zapping e a chamar-lhe gorda, e pensou que, querendo, tinha ali uma posição soberba para se vingar de anos e anos de das traições e de insultos. Ainda que numa vulgar rapidinha, após saber que, mesmo gorda e a cheirar às vezes à cebola dos estrugidos com que lhe fazia feijoadas, ainda era capaz de despertar o desejo de um homem.
Sentiu-se mais sensual do que nunca e, sempre de sorriso nos lábios disse para com os seus botões:
- Anda lá, Óscar, hoje foi o teu dia de sorte… Vais permanecer ainda algum tempo com a cabeça sem enfeites. Valeu-te o homem de gás não me fazer tremer nem um pouquito as pernas…. Mas, não me voltes a chamar gorda!...

.
Rafaela Plácido
.

2009/05/16

O casal

Flores do Jardim da Verinha
.
.
São duas flores unidas
Tão belas nascidas
Juntas fizeram o mundo mais belo
E neste carinho singelo
Nasceram para maravilhar
Os olhos dos passantes
Que de minha simples calçada
Viveram momentos no paraíso
Roubaram tantos olhares
Em sua breve existência
Parece que sempre as vejo
Abraçadinhas, ternas,
Como se fossem uma só
A beleza é assim
Deixa em nós lembranças
Enternece e fica fotografada
Em nossos corações
..
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

Meus piratas desiguais


O mais novo
*
Eterno rapaz
Engraçado, social
Diz sim, mas não faz
.
.
O mais velho
*
Adulto, cedo
Feitio agridoce
Venceu o medo
.
.

2009/05/10

Maio, em festa


"Chansons de Printemps"
William-Adolphe Bouguereau, 1889
*
Mãe de dois filhos
Amor igual de Maio
Distintos trilhos
*

2009/05/09

A bela face do amor

A verdadeira beleza das pessoas, está em seu interior, em sua alma. E só o amor faz esta beleza toda desabrochar e se exteriorizar.
.
Ame e sinta-se belo(a).
.
Ele era baixinho, gordo e meio calvo, apesar de tão jovem. Ela era loura, alta, esguia, tinha lindos olhos azuis, uma pele perfeita e uma voz linda.

Ele a amava, secretamente e pensava: "O sapo admirando a estrela. Ela jamais irá me amar."

Ela admirava a voz linda dele. Se ele não fosse tão inteligente, tão brilhante cantor e compositor, um aluno tão fantástico, talvez pudesse vir a amá-la. Assim pensava ela.

A juventude passou para ambos. Certo dia, ele, empresário de sucesso, encontrou-a na Caixa Federal. Apesar dos anos, ela ainda era bonita. Ela estava lá, bem desesperada, precisava renovar o contrato de financiamento da casa, após os gastos com a doença e a morte do filho, não conseguira pagar várias prestações. Ele estava desenganado pelos médicos, com um câncer, em estado terminal. Seria a última vez que a veria. Então armou-se de toda coragem, que lhe restava e se aproximou dela:

- Maria, você continua linda. Descobriu a fonte da juventude? Como está, amor da minha vida?

Ela olhou para ele espantada e respondeu:

-Enfim, o grande cantor de minha juventude, o aluno nota dez se digna a falar comigo, quanta honra. Eu ? O amor de sua vida? Será que mereço tanto deboche. Já não fez isto comigo o suficiente ? Deixe de ser tão malvado. Tenho problemas a resolver e muito sérios. Tenha piedade, José.

Ele se ofereceu para ajudá-la e revelou-lhe toda a sua paixão juvenil. Ela ficou espantada e seus olhos se encheram de lágrimas. Nunca o havia achado feio. Ela o via como alguém brilhante e lindo. Feia era ela, pernas finas e desajeitadas, morrendo de medo, tímida, se achando inferior, pobre, sempre com as mesmas roupas surradas e feias. Uma aluna medíocre e comum. Ela, que jamais ousara olhar para ele.

Como os complexos e a insegurança podem afastar as pessoas e impedí-las de viverem lindas histórias de amor. Como Maria e José poderiam ter sido tão felizes.

Ela conseguiu uma boa renovação do contrato de financiamento da casa. Ele era um grande amigo do gerente. No elevador, se abraçaram comovidos. Ele reparou, que ela era da altura dele e olhando para o espelho de fundo, viu um casal bonito e se sentiu jovem e feliz por alguns minutos.

Uma semana depois, ela viu o convite do enterro dele no jornal da cidade. Chorou, beijou a foto dele e disse:

- Eu te amo, José querido!

.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

2009/05/03

Porque, dizem, é o dia da mãe...

.
Mais uma vez, um tributo à minha Joaquina, escrito em 2005, publicado aqui em 2007


http://luaafricana.blogspot.com/2007/08/paula-e-joaquina-duas-mulheres.html

.

2009/05/01

Insatisfação (continuação)


Liberdade, onde estás?
Que eu tanto te procuro…
Quero-te p’ra viver em paz
E não ter medo do escuro
.
Neste buscar e achar
E neste ter e perder
Ando sempre a procurar
O que nunca chego a ter

Achei dias de nevoeiro
Com auroras de claridade
Mas nunca nada por inteiro…

As desejadas liberdades
Estão nas mãos de carcereiros
Como que atrás de grades
.
Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

2009/04/29

Insatisfação


Liberdade, onde estás?
Que eu tanto te procuro…
Quero-te p’ra viver em paz
E não ter medo do escuro
.
Neste buscar e achar
E neste ter e perder
Ando sempre a procurar
O que nunca chego a ter
.
Figas de saint pierre de lá-buráque, Gondomar
.

2009/04/25

25 de Abril de 1974


Nas mãos de bravos soldados
Viram-se armas feitas vasos
Grândola Vila Morena
Já podia ser cantada
Sem ser à boca fechada
Na rua, de peito aberto
Nunca estivera tão perto
A liberdade almejada
.
Para Lá da Lua, Espaço sideral
.

2009/04/19

Hipocrisias


Escrevo banalidades
Como outros já escreveram
Cometo barbaridades
Como outros já cometeram
.
Músicos tocam belas melodias
Poetas fazem belas poesias
Mas o mundo (meus amigos)
Está pior todos os dias
.

in Versos hipócritas
.
Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

2009/04/18

Verdes ilusões


Me chamaste de corajosa
Por enfrentar a noite gelada
Em minha saga amorosa
Era tão gratificante ser amada
.
Paramos na esquina discreta
Não sei se no céu havia lua
Só lembro de tua jura secreta
Para eu ser eternamente tua
.
A tua boca sedenta e sôfrega
A procurar a minha
Pobre de mim, frágil e trôpega
.
Verdes anos, adoráveis ilusões
Tantas esperanças eu tinha
De amor vibravam nossos corações 
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

2009/04/16

As fases da lua


Já passei por todas as fases
Fui criança, do jeito infantil
Quando era lua nova
Menina, pueril

Cresci no quarto crescente
Desabrochei primaveril
Plena de sonho e quimera
Rapariga, juvenil

Fui bela pela lua cheia
Quando passei ao estado floral
E gerei fruta excelente
Mulher, maternal

Minguei no quarto minguante
Quando me fizeram mal
Mas sobrevivi e venci a prova
Dura, racional

Contigo vivo uma nova lua
Adocei, virei uva moscatel
Prendeste-me na tua teia
Apaixonada, mel

E, ainda que pareça eclipsada
Com tantos afazeres, a tropel
Lembra-te que sou sempre tua
Até à morte, fiel
.

2009/04/15

Porque te sinto a meu lado


Porque te sinto a meu lado
Os dias são mais risonhos
Flutuas nos meus sonhos
Num voar borboleteador
Dou-te todo o meu amor
Dou-te carinho e amizade
Se sais fica a saudade
E a ânsia do regresso
É por isso que te peço
Que continues como és
Estarei sempre a teus pés
Com alma de adolescente
O meu coração não mente
Ele sabe bem o que quer
Vejo-o sorrir contente
Porque és a minha mulher
.


Para Lá da Lua, Espaço sideral
.

2009/04/10

Ela está à tua espera


Mortinha por entrar
Na vida de cada um
A felicidade espreita
Afoita, em cada esquina
E, com ar de satisfeita
Qual miúda traquina
Interpela, faz convites
E é perder a cautela
E aceitar os palpites

A felicidade é plural
Todos a podem ter
Senti-la a cada momento
Com o rosto radiante
Basta só estar atento
Parar por um instante
Para a encontrar a sorrir
E é não ter medo dela
Não recuar, não fugir

E, afinal, é tão fácil
Ela está em cada sítio
No rosto duma criança
Nas rugas duma mulher
Em cada remota lembrança
No trabalho, no lazer
No vale mais profundo
No pôr-do-sol no mar
Ela anda por todo o mundo

Aninhada, escondida
Por detrás duma duna
Num simples grão de areia
Do mais ardente deserto
Ou num dorso de baleia
A cruzar o mar incerto
Ao sabor da tempestade
A felicidade chama-te
Não importa qual a idade

A felicidade é ladina
Mas, por vezes, entristece
Quando a põem de lado
Fingindo não a querer
Confundindo-a com pecado
De tão habituados a sofrer
Mas quem se autoflagela
A pensar no paraíso
Desengane-se, vá atrás dela
.
Ela está à tua espera!!!
.

2009/04/04

Triste solidão


Eu disse, tu disseste
Palavras ocas
Impensadas, balofas
Que mais não são
Que tretas e trapaças
Trocas e baldrocas
Manobras de diversão
Que não têm outro fim
Que matar a solidão

Enquanto andam no ar
Preenchem a mente
Alimentam a vizinhança
Com mesquinharias
Cusquices sem sentido
Porque, para certa gente
Vale mais difamar
E ser difamado
Que ser esquecido
.

2009/04/01

Primavera dividida


Desde a infância
(Ai quem me dera)
Apesar de não crente
Sinto sempre a imponência
Da festa da Páscoa
Que divide a Primavera:
Primavera antes da Páscoa
Penitência
Primavera depois da Páscoa
Indulgência

A Páscoa influencia
A vida em sociedade
Não é uma questão
De meteorologia
Que chuva ou sol
Vento leve ou tufão
Frio ou súbito calor
Há de Março ao Verão
Não importa a temperatura
Ou grau de humidade
É uma questão de postura

A Páscoa é divisória
Mental e do foro social
Foram séculos de história
De calendário cristão
A cronometrar as vidas
No controlo do corpo
A impor balizas
A fazer marcação
Ora agora perdoas
Ora logo infernizas
Receitas de orações
Contas de terço, loas
Caixas de esmolas
Missinhas e sermões

Primavera primeira parte:
Tempo de Quaresma
De imagens veladas
Por trás de panos roxos
Velhas em meditação
De cabeças tapadas
Barrigas em jejum
Nada de carnes
Um peixinho, um atum
O deambular das procissões
Em ritmo tipo lesma
De anjos e anjinhas
Longas peregrinações
A santos e santinhas
Por caminhos sem luz
Os velhos e coxos
De joelhos, a rastejar
Os cristos derreados
Sob o peso da cruz
As mãos pregadas
As lanças no peito
Espinhos cravados
O sangue a gotejar
Do rosto escorreito
Tudo em prol da alma
Que o corpo não se salva

Primavera segunda parte:
Já foram os ramos
Já passou o compasso
O beijo no crucifixo
O folar aos afilhados
O beija-mão aos padrinhos
A oferta aos padres
Desfeitos os tapetes
Das pétalas de flores
Cumpridas as promessas
Foi-se o sagrado
As igrejas e capelas
O bolor das sacristias
Venha o profano
Acabou a introspecção
Venham os amores
Que a alma está safa
Saia-se para a rua
Viva a revolução
Haja solidariedade
Demos todos as mãos
Em prol da humanidade
Dancemos à luz da lua
Vivam os cravos de Abril
Os abraços e canções
O dia do trabalhador
E o dia de Camões
Em tempo primaveril
P´ra gáudio das multidões
Das agruras da Quaresma
Que só restem as trivelas
.

2009/03/28

O anjo disfarçado

A professorinha olhou e revirou o papelucho na bolsa, mas era aquele endereço mesmo, Rua das Camélias, 91. O trocador do ônibus não a enganara. Mas, que rua tétrica, santo Deus. Era tão longe, este bairro com nome esquisito. Lembrara a voz vacilante da moça ao telefone, depois ligara de volta e viera a mensagem: este telefone não existe. Era de arrepiar. Mas, a esperança de um dinheiro extra fizera dela uma pessoa de coragem indômita, igual ao título do filme, que a avó sempre falava. Umas aulas particulares sempre rendiam bem. Vida de professora é dureza. Mais uma aluna, mais uma ajuda para comprar o seu sonhado PC.
Na esquina, um bar e na única mesa ocupada, aquele homem de terno, chapéu e guarda-chuva pretos. E o cheiro de suas roupas? Pareciam ter saído da loja naquele momento, impecáveis. A pele era estranhamente branca e macilenta. Antes que ela perguntasse qualquer coisa, o homem lhe dissera:
"- Moça vá embora logo deste lugar, siga à direita e logo encontrará uma parada de ônibus, este passará mais próximo de sua casa. Não hesite, vá. Isto aqui é muito perigoso. O número 91 não existe."
Ela sentiu um calafrio e sem pensar muito, saiu quase correndo do local. Ela chegou na parada, no mesmo momento apareceu um ônibus salvador.Perguntou ao trocador e, de fato o ônibus passava próximo a sua casa. Então, mais calma, colocou os pensamentos em ordem e lhe surgiram perguntas: Quem era o homem de preto? Como ele sabia o endereço dela? O número 91 não existia mesmo na rua das Camélias? A última pergunta, o motorista pode lhe responde que não havia este número lá com residência, era só um terreno vazio. Há muitos anos, havia um bar neste local e depois de uma briga, fora morto o João Bilheteiro. Ele era um homem calmo, boa pessoa, meio excêntrico, pois andava de verão a inverno com um terno e um chapéu pretos, sem esquecer o guarda-chuva.
Chegou a sua parada, desceu atônita e estremeceu ao olhar para o ônibus, sentado em um banco atrás de onde estava, viu o chapéu do homem de preto. Eram cinco horas da tarde.
No outro dia, na manchete da primeira página do jornal, estava estampada a notícia: Outra vitima do tráfico de drogas. Violência e morte na rua das Camélias, no número 94, às cinco horas da tarde. A polícia conseguira prender um dos traficantes, mas uma bala perdida atingira uma moça. Ela pensou no homem de preto, uma sensação de gratidão tomou conta de seu coração e de sua mente. Fora salva por ele, talvez ele era um anjo disfarçado de João Bilheteiro.
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

2009/03/22

Os dados estão lançados


Se eu fosse poetisa
Tu serias poesia
Quando escrevesse versos
Eras tu quem rimaria

Eu escolhia o tema
Tu construias o sentido
Eu misturava as palavras
Tu davas-lhe colorido

Eu parava num terceto
Tu lançavas uma quadra
Eu arriscava a quintilha

E vinhas com a sextilha
Eu apostava a oitava
Por fim, fazes-me um soneto
.

2009/03/20

Primavera


Finalmente
Estás de volta
Sua traquina
Que me atormentas
Com o teu esconde-esconde
Anual

Há semanas
Que andas a rondar
Minha cretina
Que, por vezes, te enfias
Não se sabe aonde
Ocasional

Eis que hoje
Reapareces envolta
Numa aragem fina
De raios de sol aos folhos
Para te chamar
Pontual

Nada disso!
Quem queres enganar
Com esse ar de menina?
Conheço esse piscar de olhos
Com que te armas
Sensual

Tu, sozinha?
Adoras dar uma volta
Qual concubina
E lá vens com o Inverno
Só para me enregelar
Glacial

E não só!
Quando trazes o Outono
És mesmo cretina!
Estouvados, chuva e vento
Destroem as florinhas a brotar
Acidental

Só gosto
Quando te encostas ao Verão
Nua, ficas divina
Nas noites de amor aos molhos
Já posso dormir ao relento
Ideal

.

2009/03/19

Sinais dos tempos


O homem da sociedade tradicional
Providenciava o alimento
Chegava a casa esgotado
Do grande esforço braçal
E do salário mal pago
Sem espaço p'ró sentimento
Vivia na família alargada
De matriz funcional
E profunda promiscuidade
Com uma profissão herdada
Nunca saía da terra
A não ser p'ra ir p'rá guerra

O homem da pós-modernidade
Trabalha sob pressão
Chega a casa deprimido
Ainda que não tenha vontade
De ser pai e/ou marido
Faz das tripas coração
Neste espaço de emoções
De família no afecto centrada
O trabalho de casa é normal
Entre tantas profissões
Conhece o céu e a terra
E prefere a paz à guerra
.

2009/03/14

Dimensões



Da minha altura não quero tonturas ter
Da minha pequenês não quero rastejar


In "Não quero ser maior", Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.
.

2009/03/08

Para amar uma mulher



É preciso ter muito amor no peito

Para amar uma mulher

Ter uma dose infinita de respeito

Não é com um amor qualquer

Sem consistência, vazio

Não é assim que ela quer

Com rudeza ou desvario

Não se ama uma mulher

Lembre sempre: suavidade

Fale com ela, escute-a

Prime pela verdade

Seja atencioso, enterneça-a

Ser verdadeiro, é ser grandioso

Se você quiser

Com seu ato generoso

É tão simples amar uma mulher

Não faça dela um inalcansável ideal

Uma estrela fugidia e distante

Toda mulher quer ser humana e real

Quer um amor firme e constante

Você não precisa ser um heroi

Para ter o amor de uma mulher

Que é tão terno e raro, não doi

Se muito carinho, você lhe der

Nunca é tarde demais ou cedo

Para amar uma mulher

Não tenha medo

Mas, lembre-se: Só se ela lhe quiser!

.

Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)

.

À luta, mulher!


Levanta a cabeça, mulher!
Retira do fundo da raiz
A força que trazes escondida
E tens medo de mostrar
Não há nada a temer
Se só queres ser feliz
Olha pela tua vida

Assume essa personalidade
Que teimas em menosprezar
Nem que estales o verniz
Não te coíbas de pedir o céu
E pelo sexto sentido
Rege cada gesto teu
Impõe a tua vontade

Não te faças de morta
Nem temas o desconhecido
De par em par, abre-lhe a porta
Não receies protagonismo
Aproveita cada ensejo
Atira-te com frontalidade
E persegue o teu desejo

Enfrenta com coragem o boi
Fora com altares e andores
Que isso das santas já foi
Goza a vida com plenitude
Saboreia cada conquista
Cada batalha vencida
Não temas ser egoísta

Dá voz ao teu coração
Não ligues ao que o povo diz
E age em conformidade
Luta se tiveres razão
Reivindica os teus direitos
Sem queixinhas nem prurido
Concretiza os teus anseios

Combate os agressores
Aniquila-os sem rodeios
Agiganta-te, faz-te maior
Segue em frente, mulher!
E guarda o que tens de melhor
De mais puro e de mais belo
Para quem te merecer!
.

2009/03/04

Sobrevivência



A vida real
É peça de teatro
Onde o actor
Com ou sem arte
Afivela a máscara
Conforme o guião
E o pastel do produtor

Por vezes, brilha
No papel principal
Noutras, de quatro
É ponto de alguém
E, na maior parte
(Que amargura!)
Simples figurante

Do belo improviso
Ao mero cliché
Da triste figura
De palhaço pobre
Ou da sacanice
Do palhaço rico
Depende o cachet

Na sua exibição
Seja dramático
Ou comediante
O cerne da questão
É provocar na plateia
Aplausos de pé
Mais que choro ou riso
.

2009/03/01

Ruptura


Foram fatais a atracção
E a permanência
Da adrenalina
Que subia, incontrolada
Quando me vinhas ver
E nem me davas a mão

Demorou a constatação
De que a ausência
De te olhar na retina
Me tornava amargurada
E me fazia sofrer
De invulgar solidão

Adiou-se a integração
Da tua existência
Na minha rotina
Que estava organizada
Para me proteger
Deste mundo cão

Por fim, abri o coração
À tua insistência
E rasguei a cortina
Que mantinha cerrada
Para me absorver
Numa vida de paixão

.

2009/02/28

Solidão


A pior solidão não é a perda de um amor
.
A pior solidão é nunca o ter encontrado
.
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

2009/02/26

Máscaras do dia-a-dia


Maternal
Sentidos alerta
Rugas de preocupação
Gestos de ternura
Sorriso confiante
Paciência
Esperança no futuro
Mala de brinquedos
Tempo de magia

Amante
Olhos semi-cerrados
Boca entreaberta
Sedenta de paixão
Atitude sensual
Indolência
Gemidos no escuro
Caixinha de segredos
Tempo de loucura

Trabalhadora
Olhar atinado
Lábios contidos
Porte discreto
Atitude inteligente
Competência
Patrão pão-duro
Horas no degredo
Tempo de luta

Amiga
Atitude de escuta
Boca confidente
Postura descontraída
Sorriso rasgado
Irreverência
Afecto puro
Noites de folguedo
Tempo de alegria
.

2009/02/24

Rasto


Vives como nasceste
Selvagem
Teus olhos
Lançam feitiços
No esconde-esconde

Ao de leve
Como um colibri
Moves-te de flor em flor
Delicado

Brota de dentro de ti
A alegria inata
Da criança descuidada
De onde a onde
De ironia salpicada
Humorado

Autodidacta
Passas, breve
Mas deixas um rasto
De embriagante odor
De alecrim aos molhos
Que perdura
Mágico

Como beduíno
Somes-te no deserto
Nefasto
Espraias-te na viagem
A céu aberto
Esquecendo compromissos
Que proíbes
E buscas a cura
No deleite da paisagem
Arredio

És genuíno
De atitudes e feitio
Se der para o torto
Não te coíbes
De te desforrar
Trágico

Não fazes esforço
Para agradar
Quem gostar, fixe!
Quem não gostar
Que se lixe!
.

2009/02/22

Passeando


Quando ando por aí
Ver o mundo bem tento
Quase que de tudo já vi
Só me falta ver por dentro
.
Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

Bem-vindo


Semanas seguidas
De chuva, chuvisco
Morrinha, aguaceiro
E de ti, nem sinal
Chuvadas batidas
A vento forte
Queda de neve, granizo
E o mar tão arisco
Num prenúncio de morte
Afogamento, naufrágio

Tudo fazia crer
Um mau presságio
Acabara-se o paraíso
Não havia salvação
Para o reino animal
Nunca mais ias nascer
Sumiras-te de vez
Em manhã de nevoeiro
Tal qual o Sebastião
Lá nos reinos de Fez

Mas, eis-te de volta
Radiante e quente
Ofuscante, glorioso
Teus raios à solta
Aquecem a terra
Envolvem a gente
Os campos, a cidade
Os rios e a serra
Adquirem a cor natural
E transpiram felicidade

Ó sol maravilhoso
Porque não fazes assim
Para aniquilar o mal
Onde houver uma guerra
Impões uma ditadura
Finges-te de morto
Fica logo noite escura
Sem estrelas nem lua
E só voltas a brilhar
Quando a guerra acabar
.

2009/02/21

Caminho florido


Vou espalhar pétalas de flores
Onde estiveres, por onde fores
Vou perfumar o teu caminho
Presentear-te com o meu carinho
.
Da vida não perceberás
As duras asperezas
E bem depressa as incertezas
E todas as inquietações esquecerás
.
Doce é sonhar
Poder ser assim tão importante...
Só pelo ato de te amar
.
Esta afetuosa ilusão
Me enternece por breve instante
E faz ditoso o meu coração
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)

2009/02/18

Interregno


Por momentos, graças à música, ficam alheias
Às intempéries do mundo em seu redor
Esquecidas da guerra, da fome e das cheias
Dançam ao sol, inebriadas, sem temor
.

2009/02/14

Água na boca



O apaixonado rapaz
De pele de chocolate
Ostenta, audaz
Perante a sua amada
Em cada madeixa
De cenoura raspada
Caroços de ameixa
E o rosto sem pêlo
De pêra de abacate
Sabe a baba de camelo

Ainda tímida, treme
A doce rapariga
De pele leite-creme
E cabelo cor de espiga
Mas, enfeita as orelhas
Com raminhos de salsa
E cerejas vermelhas
Prende na alça
Barrigas de freira
Com flor de laranjeira

Nos ombros dele
De tarte de maçã
Brilham no cachecol
Grainhas de romã
E sementes de girassol
A écharpe dela
É fina como um véu
Salpicada, aqui e ali
De natas do céu
E morangos com chantilly

Para que o acompanhe
Os braços do moço
De paus de canela
Envolvem-lhe o corpo
Perfumado de camomila
Enquanto que os braços dela
De biscoitos de champanhe
Lhe rodeiam o pescoço
De doce de chila
E vinho do Porto
.

2009/02/11

A cor do sonho


Esta noite tive um sonho
Por demais curioso
Transformara-se o globo
Frio, cinza, tristonho
Num planeta maravilhoso
Onde tudo parecia novo

Passado o choque inicial
Da inquietante surpresa
Subimos ao pico mais alto
P'ra abarcar tanta beleza

Nesse mundo animado
Onde não há bem nem mal
Crescem árvores azuis
E erguem-se, ao longe
Montanhas alaranjadas
Contra o céu encarnado

Mais perto, do planalto
Brotam torrentes
De fluidos vermelhos
Que se abatem incandescentes
Em lagos azul-turquesa
Enquanto trilhos ocres da terra
Serpenteiam entre a floresta


Até que, acoitado numa gruta
Avistámos um monge
Refugiado de guerra
Da fome e da tortura
Que vive de rebentos
De erva, raízes e fruta
E se dedica à pintura
Seus gestos sapientes
Revelam natural pureza

Neste mundo garrido e belo
Uma reminiscência resta
O sol continua amarelo
.

2009/02/07

Anseio


Oh! Como já odeio
O negrume das nuvens
O manto branco da neve
E todos os cinzentos
Morro da escassez de cor
Paralisados os movimentos
Tolhida, hiberno
Pela falta de calor
Amputada de pensamentos
Já nem me reconheço
E, vergada pela amargura
De tédio, entristeço
Na penumbra deste Inverno
Que, tenazmente, perdura

Ah! Como anseio
A mudança de estação
A chegada da Primavera
Aquele ar límpido e leve
O céu da cor azul
A fauna animada, atrevida
As diversas tonalidades
Da flora colorida
Nos jardins ou matagais
Os passeios pelo campo
A colheita das novidades
Nas hortas e quintais
E, depois, o maior encanto:
A chegada do Verão!
.

2009/02/04

Coragem


Se a coragem de fugir
É medo de ficar
Enfrenta o problema
Em primeiro lugar
Para depois prosseguir
Sem pressa, devagar
No encalço de um poema
.

2009/02/03

Antes que amanheça


Gosto quando me prendes
Que te encostes a mim
Não gosto do amanhecer
Pudera estar sempre asssiiiiimmm
.
Para Lá Da Lua, Espaço Sideral

Antes que seja noite escura


Gosto de te aprisionar
Antes de adormeceres
De, entre as mãos, te apertar
Para, terno, me aqueceres

2009/02/01

Resposta ao desafio da Carmen (anseiosdaalma-etc.blogspot.com)



- Querida, reconsidera, por favor!

- ...

- Vá lá, eu sei que te traí com muitas mulheres, mas elas não significaram nada para mim...

- ...

- Por favor, dá-me mais uma oportunidade. Não faças essa cara de insensibilidade e indiferença.

- Ok! Perdoo-te, se fores por essa blogosfera fora e pedires desculpa em todos os blogues do mundo.

- Nem acredito, minha querida, que ainda me dás uma chance... Não te vais arrepender. Então aqui vai: Pessoal de todo o mundo, adoro-a, por isso perdoem-me. Aqui de joelhos te peço, Mulher Lua, que intercedas por mim... PERDÃO!!! PERDÃO!!!
.

2009/01/30

Retorno



É tamanha a felicidade
Que, por vezes, me invade...

Para encontrar espaço
Para outra invasão
Vou para o terraço
E lanço-a em flores
De todas as cores
A todos sem excepção
Aos dominantes, ao povo
Num acto de partilha
De simples amizade
Que, logo, retorna
E me enche de novo


2009/01/28

Cansaço


Fartou-se do desassossego
De ser anjo da guarda
De andar sempre a acudir
A minimizar temores
A proteger as casas
Ir atrás das criancinhas
Para as afastar do perigo
A mostrar dedicação
Esgotada das rezinhas
Que a impediam de dormir

Cansada da competição
Das fadas-madrinhas
Levantou-se muito cedo
E, antes do nascer do dia
Despojou-se da farda
Sem medo de se ferir
Ignorando quaisquer dores
Arrancou as próprias asas
Que lhe transmitiam poder
E uma certa autonomia

Sem olhar p'rá retaguarda
Deixou o mundo celeste
À incapacidade de sofrer
À ausência de castigo
Preferiu a terra agreste
E decidiu assumir
A condição de mulher
A vontade de viver
A faculdade de rir
E até de um dia morrer
.

2009/01/26

Recomeço

Nas areias das praias
De cheiro nauseabundo
Proliferam os detritos
Que invadem o planeta
E arrasam toda a terra
Tornando-a estéril
A fome gerou conflitos
E instalou-se a guerra
.
Quando o céu esverdeou
E a terra se esgotou
O cordão umbilical
Que ligava o ser humano
A Gaia, a mãe natureza
Como se previa, rasgou
E, assim, deflagrou
A terceira guerra mundial
.
Acabaram-se as estações do ano
Foi-se o Outono, a Primavera
Imiscuiu-se o Inverno no Verão
Desapareceu fauna e flora
Adeus luar de Janeiro
Não mais houve pôr-do-sol
Foi-se o raiar da aurora
E a alegria do Carnaval
.
Nos quatro cantos do mundo
Enlamearam-se, poluídos
Os mares, antes, turquesa
Os rios viraram gases
Os lagos desertos de tristeza
E por entre espinhaços
De peixes petrificados
Jazem corpos aos pedaços
.
Depois da destruição massiva
Enviaram alguns robots
Para servir de cobaias
Que, num pequeno bando
Vagueiam descontraídos
Investigando na atmosfera
Os níveis de radiação
E os raios ultravioleta
.
Consumidos os víveres
Aos bunkers chegou a morte
E sem outra alternativa
Sozinhos, já sem comando
Sem tecnologia de ponta
Nem inteligência artificial
Os robots reinventam
A linguagem gestual…
.

2009/01/23

Íbis


Num dia quente de trovoada
Banha-se, libidinosa
Num desses charcos infectos
Onde uma flor de nenúfar
Voluptuosa
Se destaca dos líquenes

Trepa-lhe pelas costas acima
De pele matiz de açúcar
Íbis, a ave sagrada
Venerada pelos Egípcios
Que dizima
Destrói insectos

.

2009/01/20

Sonâmbula


Sempre que a noite desce
E se vê sozinha na cama
A vontade de fugir cresce

Para melhor se mover
Não leva o pijama
E sai sem ninguém ver

Desviando-se nos céus
Das nuvens de algodão em rama
Segue envolta em finos véus

Batendo as asas de anjinho
Desfruta, de cima, o panorama
Agarrada ao velho ursinho
.

2009/01/17

Sereia azul


Depois de fortalecida
Antes de partir para sul
A sereia agradecida
Por tamanha acção
Pintou-se toda de azul
E pôs cauda de dragão
.

2009/01/16

A sereia


Na linha d'água
A parte superior
Do corpo de mulher
Sufoca ao calor
Da tarde de verão
E, triste, abandonada
Desmaia na areia
Com o livro na mão

Indiferente à mágoa
A parte inferior
De rabo de peixe
Flutua ao sabor
Da maré-cheia
E, sempre acordada
Mantém-se em acção
Mexe, serpenteia

Na baía, ao largo
Entre a praia dourada
E a densa vegetação
Na ondulação agitada
Um casal de golfinhos
Dá saltos mortais
E, aflitos, sozinhos
Enviam sinais

2009/01/15

Contra os pecados...


Para os pecados combater
Impingem-nos as sete virtudes
Para envergonhar e tolher
Comportamentos, atitudes
Pra cima, pra baixo, e um, e dois...
Toca a calar, a aguentar, a conter

À preguiça impõe-se a diligência
Não nos querem a sornar, a dormir
Não há tempo a perder, é fazer
Sempre alerta, solícitos, amigos
Pra cima, pra baixo, e um, e e dois...
Toca a mexer, a saltitar, a correr

Para afogar a ira, vem a paciência
Nada de contestação, de revolução
É calar, é aturar doidos à solta
Não se enervem, baixem a bola
Pra cima cima, pra baixo, e um, e dois...
Nada de falar, é obedecer, é marchar

Contra a inveja, viva a caridade
Nada de ambições, de olhar à volta
Nada de sonhos ou devaneios
Temos que atender os mendigos
Pra cima, pra baixo, e um, e dois...
Toca a dar, a oferecer, a abonar

Prá luxúria obrigam-nos à castidade
Nada de sexo, juízo nessa carola
Nada de desejo, de emoção
Nada de bocas, de galanteios
Pra cima, pra baixo, e um, e dois...
Toca a abster-se, a purgar, a purificar

E pró pecado velho da vaidade
Nada de beleza, perfume ou essência
Vinha a renúncia, a humildade
Não se lavem, sejam feios
Pra cima, pra baixo, e um, e dois...
Toca a suar, a tresandar, a feder

Prá gula, encolham a pança
Nada de gordura, obesidade
Prós gulosos venha a fominha
Mascarada de temperança
Pra cima, pra baixo, e um, e dois...
Toca a emagrecer, a estreitar, a definhar

E, por fim, contrariando a avareza
Nada de cofres, de poupança
Sim ao desprendimento, à largueza
Sejam altruístas e siga a marinha
Pra cima, pra baixo, e um, e dois...
Toca a dividir, a partilhar, a distribuir
.

2009/01/11

Qual deles mata mais?


Vaidade ou ostentação
Ou apenas amor à beleza?
Preguiça ou negligência
Ou somente moleza?
Ira, ódio ou vingança
Ou simples indignação?
Luxúria ou lascívia
Ou pura sensualidade?
Avareza ou egoísmo
Ou simples ambição?
Inveja ou cobiça
Ou somente desejo?
Gula ou voraz apetite
Ou apenas insaciedade?
Dos sete pecados
Que dizem, mortais
Dos sete, aqui, ilustrados
Qual será que mata mais?
.

2009/01/10

Um Anjo em meu caminho


Há um Anjo em meu caminho
Que não se veste só de dourado
Mas, de todas as cores que tenho amado
E, me traz imensa ternura e carinho
.
Torna leve as duras passagens
Com suas diárias e lindas mensagens
Sinto que sempre está comigo
Doce e inefável presença de amigo
.
Penso nele ao acordar
E esta lembrança logo vem me alegrar
Mesmo se o dia nasceu triste e nublado
.
Querido anjo de esperança
Sinalizando sempre a bonança
Meu especial e inestimável, Anjo Amado!
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

Estou pronta


Conforme o prometido
Arranjei-me depressa
P'ra irmos ao baile
Da senhora do castelo
Não trajo vestido
Nem saia, nem calça
Enrolei-me no véu rosa
E, ainda tirei o xaile
Mas meti-o na gaveta
Preguei uma flor na alça
E, à falta de travessa
Prendi outra no cabelo
P'ra ficar mais charmosa
Pus asas de borboleta
.

2009/01/08

O meu fado



Com amor e altruísmo
Ensinei-vos a viver
Em espaço e liberdade
Para brincar e crescer
A discernir o perigo
Que espreita do abismo
Mas, por outro lado
Estive sempre aqui
Atenta no crescimento
Idade após idade
E, agora que já morri
Ainda vos trago comigo
Ser mãe é o meu fado
.
Sempre que o vento
Vos acaricie o rosto
Adivinhem quem é
Em todas as cores
Nas coisas pequenas
De manhã, ao café
No prato mais tosco
Em todas as dores
Dos momentos duros
Estou lá, meus amores
Em cada chuvada
Dos dias escuros
De neve ou trovoada
.
No luar de Agosto
Nas tardes serenas
De raios de sol
Nas peles morenas
No espelho mais fosco
Nas ondas do mar
Nos campos de flores
De tremoço e girassol
Estarei convosco
Nas pedras da rua
No asfalto da estrada
Numa estrela cadente
Nas fases da lua
Podeis confiar
Estarei presente
.

2009/01/07

Metamorfoseando


A cada momento
Mudo de cor
De forma, de som
De textura, de odor
Grito, lamento
Chamo por ti
Altero o visual
Retiro o marrom
Visto laranja
Levanta-se o astral
Calço vermelho
Ganho energia
Em frente do espelho

Do sumo de toranja
Surge o desejo
De fazer poesia
Viro cigarra
Em tarde cálida
De intensa alegria
Arde em labareda
A touca de renda
Toco guitarra
Solta-se o beijo
À hora da merenda
Prendo o cabelo
Com fitas de seda

Em eterna mudança
De direcção, de plano
Solto os caracóis
Ao sabor da dança
Em laços de cetim
Enrolo-me em ti
Cheiro a jasmim
Ao sopro da flauta
E toques de piano
Rodopiam véus
E notas de pauta
No espaço sem fim
De estrelas e sóis

Sento-me nas nuvens
De flocos de algodão
Que vagueiam nos céus
Mas, nesse instante
Um furacão
Atira-se a mim
E despe-me ao luar
Dedilho o bandolim
Ganho finas asas
De borboleta
Mas, falta-me o ar
Aspiro em violeta
E expludo em lilás

Em queda livre
Na espiral azul
De rosto cinzento
Aterro em castanho
Verniz de madeira
Não sei onde estás
O susto é tamanho
Que, em roxo, suspiro
Gemo e desmaio
Acorda-me o vento
A soprar do sul
Desço da palmeira
Ao som da trombeta

Amadureço amarelo
De açafrão, diospiro
E, no cimo do monte
Bebo chá de cidreira
Mas tu não vens
Debaixo duma ponte
Arranjo um abrigo
Vindo do riacho
Ouço o coaxar de rã
Odor de ervas, tomilho
Alfazema, hortelã
Mas, não te acho
Levanto-me e prossigo

Em farrapos, descalça
Pico-me nas ortigas
E fico doente
Lavo-me na água
De alecrim e salsa
Perco-me, deambulo
Negra de mágoa
Por entre as espigas
Do verde milho
Ajoelho, rastejo
Sigo as formigas
E, num campo de trigo
Descubro o casulo
E, finalmente
Adormeço contigo
.

2009/01/04

Espinho


A rosa é uma flor
Que cheira bem
Como ao meu amor
Perdoo os picos que tem
.
Figas de saint pierre de lá-buráque, Gondomar
.

2009/01/03

Resgate


Porque demoras assim?
Tremo de ansiedade
Perdida, sozinha no espaço
Sem fim
Delicado, já se esfarrapa
O véu
.
Que vai ser de mim?
Sucumbo de saudade
Asfixiada, presa no laço
Carmesim
Que me puxa, à socapa
Pró céu
.
Onde andas, querubim?
Suga-me a tempestade
Quase morta de cansaço
Por fim
O grito solta-se, escapa
Escarcéu
.
E ouves-me, delfim!
Retomo a vivacidade
Cingidos, num grande abraço
Enfim
Aterramos, de leve, na escarpa
Do ilhéu
.

Alfazema


Brisa perfumada
Saiu em disparada
Só pra te envolver
.
Espalhou aroma
De essência de alfazema
Soprou bálsamo
E trouxe deleite
.
Sarou ardores
Fechou feridas
E aliviou dores
.
Trouxe música,
Terna melodia...
Aqueceu teu coração
E teu sorriso chamou

.
Neli, São Paulo (Brasil)
.

2009/01/02

Sei-te


Fez dois anos, a nove de Dezembro
Que os nossos olhos se encontraram
E num mergulho, se bem me lembro
Profundo, para sempre se afundaram

Naquele encontro de tanta gente
Conhecida só do mundo virtual
Eras mais um a estar presente
Mas a magia aconteceu, abissal

Ainda andámos muitos meses
A lutar, a remar contra a maré
Telefonavas, aparecias às vezes
Bebíamos copos, tomávamos café

Mas a atracção, a cumplicidade
Crescia, alastrava, mudou de cor
O que queríamos só fosse amizade
Tornou-se paixão, é mesmo amor

Agora que começaria um ano banal
Tenho a certeza que vai ser diferente
Porque esteja eu muito bem ou mal
Sei-te comigo, sempre presente
.