2009/11/21

Cesto de castanhas


Castanha crua ou assada
Lembra-me o S. Martinho
Lembra-me a minha amada
Comigo metida no quentinho!
.
S. Matinho foi um santo
Que aqueceu meu coração
Amor, faz-me outro tanto
Transforma o Outono em Verão
.
Uma castanha puseste-te a descascar
Com amor, meteste-ma na boca
Depois continuamos a brincar
Trocando-de de boca a boca!
.
Uma castanha quente assim
À boca traz um halo de calor
Uma onda de ternura, um frenesim
Não páres, não páres, amor
.
Uma castanha na boca entra
E misteriosamente se desfaz
Quando um homem menos intenta
Sai-lhe um estrondo por trás!
.
Figas de saint piere de lá buráque, Gondomar
.

2009/11/15

É...



É ainda paixão louca
É por vezes coisa pouca
É o lado que se dorme
É largar o que consome
É sentir nova vida
É conseguir coisa querida
É revolução de existência
É sentir a tua ausência
É ter medo do fim
.
É saber que fazes parte de mim!
.
Para Lá Da Lua
.

2009/11/13

Ser criança, seria tão bom!


Seria tão bom
Se mantivéssemos
O nosso dom
Da sinceridade
Da fraterna amizade
Seria tão bom
Ouvir aquele som
Do canto do passarinho
Ter o nosso cantinho
Com nossos brinquedos
Afastar os nossos medos
Ter sempre à mão
Pertinho do coração
Aquela amizade sincera
Nunca ver o lado fera
De quem amamos
Estimamos, admiramos
Brincar de pega-pega ou pique
Ou ter quem fique
Connosco, em nossa brincadeira
Que goste de correr na beira
Do rio de nossa cidade
E seja de verdade
A alegre companhia
Com liberdade e alegria
Nos dê muita esperança
E nos faça de novo criança
Alguém que nos abrace
Em um puro enlace
De amorosa igualdade
A nos trazer a maior felicidade!
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

2009/11/07

Saber amar



Saber amar
É viver após a morte
É escolher melhor sorte
Não querendo uma qualquer
É amar-te, mulher
Que me soubeste mostrar
Que se pode voltar a amar
É pequenez na tua ausência
É ver em ti a essência
De uma vida calma
É o reacordar do amor
É o descansar da alma
É sentir no teu rosto
O calor do teu encosto

Amo-te cada vez mais Filó!
.
Para Lá Da Lua, Espaço Sideral
.

2009/11/03

Vida e morte no sanatório

A Irmã Teresa disse-me que temos uma nova doente. É uma rapariga de 20 anos, vem de Amarante e, pelos vistos, os pais vão para o Brasil. Levam as outras três irmãs com eles…
Mais uma que talvez apodreça neste belo edifício, erguido na montanha como um santuário maldito. O ar é puro, cheio de fragrâncias, mas pergunto-me se serão os pinheiros, os abetos e as outras árvores capazes de limpar os pulmões dos que chegam minados por este flagelo… Serão, a clausura a que os submetemos, quando chegam a cuspir sangue, a escrupulosa higiene e a vaporização na sala com aroma a eucalipto suficientes para a curar e restitui-la à família?
Tão jovem e a vida está a negar-lhe tudo… Talvez até tenha já pensado em ser mãe…Mas, se foi assim, é mais um projecto adiado, queira Deus que não ad eternum. Acontecerá isso se eu, este sanatório, as abnegadas freiras e todos os que aqui trabalham a não conseguirmos salvar. Aqui, morre-se e vive-se com o mesmo oxigénio. A diferença entre uma coisa e outra é uma miserável bactéria, surgida do nada e propagada nas asas do vento com um anjo maléfico disposto a ceifar vidas sem contemplações.
É difícil ser médico neste século e ainda mais trabalhar com tuberculosos. É um drama. Quase todos os dias há gente a partir, sem surpresa para mim e para os meus colegas, que lhes vemos as sombras acoitadas no peito, como necrófagos à espera de carne putrefacta. Quanta compaixão não é precisa para pintar ao doente uma tela que o tenha como tema, curado e com um futuro risonho à frente, e em que esteja sempre presente o amor!...
Numa grande parte das vezes, a realidade é outra e, perante os nossos olhos, está o espectro abominável da morte, cujo esqueleto vemos antecipadamente naquelas malfadadas chapas cinzentas reveladas em contraluz, num frio consultório onde a impotência se instalou. De vez em quando, o desânimo abate-se sobre mim. Não sei por que fiz aquele juramento a Hipócrates, se não salvo todas as vidas que queria e as que mereciam ser salvas. Todas, sem excepção. Quantas me fogem por entre os dedos, como areia com pressa de voltar à rocha de onde se fragmentou e à natureza que a criou!...
Depois, penso na metáfora da areia e reconforto-me, pensando que, talvez, quem parte não esteja senão a regressar a casa, onde não faltará, nem paz, nem amor, nem compaixão, nos braços de Deus e na sua infinita misericórdia, depois de o mundo lhes ter sido tão cruel. É quando eu próprio mais preciso de Deus. Preciso Dele para me reerguer, continuar e olhar de novo com abnegação os olhos de quem venha até mim pedir a esperança, que às vezes não tenho, como se eu fosse o próprio Deus e não tivesse o direito de desiludir. Talvez os olhos desta rapariga, que chegou sem saber se um dia poderá vir a ser mãe…
A jovem já está instalada na ala feminina e a ficha dela diz-me que o pai era ferroviário. Examino-a, mal posso, analiso o historial clínico dela e tenho um estranho pressentimento. Este não será um caso abençoado, dos que, felizmente, ainda me vão acontecendo… Trajando já a roupa que distingue os doentes das outras pessoas, conversamos os dois. Ela dum lado e eu do outro da divisória que separa dois mundos.
Apetece-me transpor esta barreira, mas não devo fazê-lo, em nome dos outros doentes. Subsiste sempre o receio de que o maldito bacilo decida não embocar na janela de saída, alojando-se por aí onde eu o possa respirar incautamente Ela diz-me que os pais irão para o Brasil e que aí se lhes juntará, mal esteja curada. Pergunto-lhe se no lugar morava havia mais alguém doente e responde-me afirmativamente, um rapaz colega do pai, com quem foi forçada a acabar o namoro, quando a família decidiu partir deixando-a aqui. Foi, com toda a certeza, o infeliz a contaminá-la e pergunto-lhe por ele. Obtenho como resposta que não sabe o nome do sanatório onde o jovem está. Penso então em Camilo e no seu “Amor de Perdição”. Também, neste caso, um perdeu o outro, nos beijos trocados com a inocência de quem julga ter uma vida inteira pela frente.
Fico arrasado, enquanto Celeste fala do coro da igreja onde ensaiava para cantar no domingo seguinte na missa. A irmã Doroteia, que está com ela, protegida com uma máscara branca, esboça um sorriso de aprovação “esta rapariga conhecerá o céu” deve ter pensado. Concordo, com mágoa, depois de lhe sentir uma tosse cheia de purga vinda dos pulmões contaminados pelo mal. Pergunto-lhe se gosta do sanatório, ela diz que o acha muito bonito. Perdido na montanha e com tanta gente, parece uma cidade em que nada falta. Falta saúde – penso eu…
Só é pena não poder ir onde quiser, por causa das restrições de circulação. Diz que gosta sobretudo daquelas grandes janelas debruçadas na montanha, semelhantes aos claustros do Convento de S. Gonçalo.
Prometo curá-la, sai agradecida… Deus nunca castigará um médico pelas suas mentiras, quantas vezes o único remédio para quem não tem outro… Como a Celeste, um anjo dentro em breve a subir ao céu, se não ficar aqui perdido para sempre, como um fantasma triste…
.
Rafaela Plácido
(Esta história foi inspirada na família de Carmen Miranda, sobretudo na irmã Olinda, a minha Celeste)
.

2009/10/31

Se tu fosses...

Se tu fosses um elemento
Dos que fazem a natureza
Serias a água certamente
Por vezes, caída do céu
Em gotículas, sem surpresa
Ou em calhaus de granizo
De repente, sem aviso
Noutras alturas, és neve
E despenhas-te da falésia
Derretido por entre as pedras
Fonte da água mais pura
E levas a inquietude do rio
Que só tem um pensamento
Correr em direcção à foz

Quando queres descansar
Abrandas e espelhas na ria
Mas, partes logo a seguir
E desaguas no oceano
Tal como o mar a bramir
Que se desfaz em espuma
Na luta contra os rochedos
Só se ouve a tua voz
Nas noites de tempestade
Mas, desmaias de macio
Nas praias de areia fina
E continuas a dormir
Com o vaivém da maré

Acordas de manhãzinha
A cheirar a maresia
Deambulando pela areia
Espraias-te todo o santo dia
Divertes-te a dar tabefes
Nas lapas e mexilhões
E, enleado nas algas
Rodopias já fora de pé
Acaricias golfinhos
Afliges e chateias a raia
Espreitas os tubarões
Irritas polvos e lulas
Foges da baleia a rir
Desatinas co'as gaivotas
Gargalhas com o albatroz
E vais-te afastando à vela

Até que, ao final da tarde
Bailas de mansinho, ao longe
Bem na linha do horizonte
E confidencias ao sol
Que te estás a preparar
Para a chegada da lua
Que, saudosa, logo te envolve
Num brilhante manto de luz
Jurando que é sempre tua

2009/10/25

Escravidão nunca mais


Não permitas
A escravidão
Nem dos filhos
Nem do patrão
Nem dos amigos
Não do teu cão
Nada de servilismo
Ama porque queres
Dá porque desejas
Não esmoles
Não rastejes
Vale mais
A sinceridade
Do que mentir
Ou ter piedade
Tortura jamais
Vive em liberdade
De cabeça levantada
Admite a derrota
Mas avança novamente
Para outra batalha
Reergue-te do chão
Não tenhas pena de ti
Concentra a tua força
Num novo desafio
E segue em frente
O arco-íris está ali

2009/10/14

Expectativa


Aguardo ansiosamente
O desfecho do mestrado
Não que seja urgente
Ser mestra d’alguma cena
Pois sei que o meu fado
Aquilo que me faz feliz
É ser eterna estudante

Mas, agora, que está acabado
Mais um grande desafio
Quero saber o resultado
Mas, demora, demora
E já me perpassa um calafrio
Só a pensar na defesa
Na hora das cartas na mesa

Embora esteja preparada
Esta espera é desgastante
Será que vou ser trucidada
Esmagada pelo júri?
Será que sigo adiante?
Mas quem me mandou a mim
Meter em semelhante alhada?
.

2009/10/08

Memórias de velha


Por detrás da vidraça
A velha adora observar
O que lá fora se passa
.
É a forma de recordar
De aniquilar a traça
E de espantar o mofo
.
Enquanto passeia os olhos
Sua mente desentorpece
Içando o corpo dos escolhos
.
Memória que não se esquece
Do alecrim aos molhos
Nem se compadece
Do seu dia-a-dia balofo
.
E, apesar do marasmo
Que a parece tolher
Sente um certo sarcasmo
Por quem a julga a morrer
Sempre que tem um espasmo
No esburacado estofo
Donde, como pode
Se ergue para a janela
.
E a tristeza que a sacode
Voa para longe dela
Quando a transforma em ode:
- Ai, que casal tão fofo!
.

2009/10/04

Versos hipócritas



Escrevo

Que é escrever?

Que faço?

Que me apetece fazer?

O mundo está mal

Os homens passam fome

A Terra cada vez

Está mais destruída

Para que escrevo?

Que faço eu

Para melhorar a vida?

Escrevo banalidades

Como outros já escreveram

Cometo barbaridades

Como outros já cometeram

Enquanto se mata o suicida

Músicos tocam belas melodias

Poetas fazem belas poesias

Mas o mundo

Piora todos os dias

Fétido, nauseabundo

Todavia, vamos falando

Sempre com a esperança

Duma Terra sem ganância

Entretanto, no meu canto

Escrevo

Para meu próprio espanto

Versos plenos de hipocrisias...

.

Figas de saint pierre de lá-buráque (Gondomar)

2009/10/01

Luz... a mais linda


A luz mais linda
Cujo brilho encantador
Comove a minha alma
Não está no espaço
Em estrela alguma
.
Esta luz que me alumia
Em cada recanto secreto
Esta chama que me traz
Confiança e alegria
Tanto amor e tanta paz
Irrompe do olhar
Do meu Anjo dilecto
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)

2009/09/26

Tempo de reflexão

.
Meninos, amanhã, vamos a votar


2009/09/24

O tempo passa por todos

.
.
HULK







HOMEM ARANHA

BARBIE




PIU-PIU




SUPER HOMEM


THOR
BATMAN E ROBIN

MULHER MARAVILHA




2009/09/19

A cobardia da dor



A Dor, lavada em lágrimas
Sentiu-se traída e fugiu
Partiu e foi morrer longe
Constrangida pelo ciúme
Consumida pela agonia
Humilhada, arrasada
Não suportou a alegria
Do nosso amor e paixão
Inconveniente e impotente
Contra as boas coisas da vida
Desapareceu do mapa
Não conseguindo resistir
Ao sorriso da nossa felicidade
Adeus, não voltes, nunca mais
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

2009/09/15

Prendas a luzir


As crianças olham as estrelas
E têm desejos
Antes que as prendas caiam do céu
Dêmos-lhes beijos
.
.
in As crianças são estrelas, Figas de saint pierre de lá buráque (Gondomar)
.

2009/09/06

No encalço da conquista


Numa fresca manhã, iluminada
Por gotas de chuva brilhantes
Eis que uma núvem enciumada
Esconde o sol, por instantes
.
Veio a noite e ela ainda chora
Porque o malvado não quis brincar
A sua vida é ir e vir. Foi-se embora
Foi dar a volta ao mundo, se esbaldar
.
Ah! Núvem apaixonada, triste
Será que que não percebeste, não viste
Que há seres masculinos volúveis?
.
No seu afã de navegar, de conquista pura
Sem porto seguro, calma e ternura
Querem tormenta e luta, mistérios insolúveis...
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

2009/09/02

Incógnita



Afinal que sou eu?
Homem, animal
Ou coisa assim-assim?
Se vos conheço mal
Pior me conheço a mim!

In Grosa Poética, Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

2009/09/01

Bem(mal)dita sejas!


Tem estado sempre comigo
Embora a pensar em ti
Mereces-lhe toda a atenção
Confesso que nunca vi
.
É de manhã, é à noite
Estás sempre atravessada
Creio que até pensa em ti
Quando comigo deitada
.
Espero que de ti se livre
És razão para que eu reze
Estou cheio de te aturar
Vai embora bem(mal)dita tese.
.
Para Lá Da Lua, Espaço Sideral
.

2009/08/30

Não vás ao morro, Tóino, podes morrer, Tóino



" Hoje comecei a perceber melhor a grande criminalidade: ontem fiquei a saber pelas notícias que um polícia com 30 anos de carreira pode ganhar cerca de 150 Reias (aproximadamente 24.000$00).
Noutras notícias, porém, ouvi informações diferentes desta; de qualquer modo, o salário nunca ultrapassará os 130.000$00/mês.
Ora, um deputado ganha 11.000 Reais e vão ser aumentados para 20.000 (mais ou menos 3.000 contos).
Portanto, o polícia, para se aproximar dos deputados - o que é uma questão de justiça social - colabora com os bandidos.
O deputado não precisa de colaborar com os bandidos - já é.
É esta, pelo menos, a opinião de muitos brasileiros. Quem precisa de colaborar com os deputados são os bandidos: para impedir que os polícias sejam aumentados.
De facto, é difícil combater criminalidade perigosa com 24 contos/mês. Por isso, há greves da polícia desde que aqui cheguei... "
.
Fernandes, Luís (1999) Pelo rio abaixo. Porto: Livpsic.
.

2009/08/28

Só um cheirinho... daquilo que me anda a consumir...




Pedido de ajuda


Nesta situação da minha vida, estou desesperado pois já fui algumas precárias de curta e longa duração. Tenho sido um preso exemplar, sempre evitei os problemas que me apareceram à frente, sem os procurar, mas o mais importante é que sempre soube lidar com os mesmos, sem problemas. O ter a minha Mãe e irmão também detidos, não tem nada a ver com a minha situação prisional, mas sim quando sair daqui para a liberdade, pois quando sair, não tenho nada e vou precisar de alguma ajuda como por exemplo, onde vou dormir, comer, trabalhar e ter algum dinheiro para a minha própria sobrevivência em liberdade total. Sem essas ajudas vai ser muito difícil para mim, vou ter uma vida muito dura e sofrida com muitos problemas, pois encontro-me sozinho sem ter para onde ir quando sair. Enfim, estou só mas sei que se tiver uma pequena grande ajuda posso ter uma vida normal como todas as pessoas têm, ser “social”, saber estar na comunidade e não ser um carrasco da mesma. Preciso mostrar a mim mesmo que consegui vencer na vida e depois mostrar à minha filha que sou um Bom Pai, pois quando fui preso, ela só tinha 3 meses de vida. Tenho agora uma filha com 5 anos, fez no dia 13 de Dezembro e é o meu orgulho, é a luz dos meus olhos, por isso deixai-me ser feliz.
Quando sair daqui, em Agosto, preciso urgentemente de ajuda para não ir parar ao local onde nasci e fiz toda a minha vida, que foi na Rua Escura, no Porto. Só peço que não façam de mim mais um sem-abrigo, pois a pessoa que me podia ajudar era a minha Mãe, mas não posso ficar à espera dela 6 anos, pois tenho que seguir com a minha vida a fazer tudo para ajudar a minha filha. O resto da minha família já tem os seus filhos e as suas vidas.
Quando sair daqui, se não tiver ajuda, venho cá parar outra vez ou acabo com a minha vida, pois não vou suportar tal dor de ver a minha filha passar por mim e ver-me a dormir num canto. Por favor, ajudai-me, pois estou desesperado. Já sei que fiz muito mal a algumas pessoas, mas estou arrependido por tudo o que fiz. Acho que já paguei por tudo o que fiz. Entrei com 22 anos numa cadeia, vou sair com 33, acho que já chega.
.
Serafim (nome fictício), Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, 30 de Março de 2009
.
Nota: Deve ter saído ontem... Quando o entrevistei, no dia 22 de Maio, ainda não tinha lá aparecido ninguém da Direcção-Geral de Reinserção Social...

2009/08/19

Uh! Uh!

Estou ocupada, mas regressarei, mestre... ah ah ah
..
..

2009/08/08

Eu também quero...



Passam os dias, mas parece que não
Só quero é que o Agosto vá de empurrão,
Quero dar um grito de vitória
Ver que o secundário passou à história,
Dar um salto de felicidade
E pôr os pés na Faculdade!!!

Mas vai ser um festival
Um redopio a valer
Entre casa e hospital
Vou p’ra Faculdade a correr.

Parece que já me estou a ver
Não querer deixar tudo por fazer
Reclamações a chegar
Actividade p’ra acabar
Questionários p’ra lançar
“Não Conformidades” a espreitar.

Toca a bolir
Bolir até cair
Ter boleia de um avião
É que dava um jeitão

Mas com o Metro à porta
A viagem nem é morta,
A seguir o comboinho
Dá-me boleia no caminho.

E em casa ao chegar
As filhotas vou abraçar
A janta vai a caminho
Mas eu fico sem pratinho

Pego no carro acelarada
De certo, já atrasada
Ao ISCAP tenho de ir
De lá já não posso fugir.

Já à noite, bem cansada
Tento manter-me animada
Ainda tenho o maridinho
Que precisa também de miminho.

Entre letras e caretas,
Na casa nada pode faltar
Nem que seja de moletas
Só não me pode é faltar o ar.

Serão 3 anos com muito,
Pouco não será de certeza
Sei por aquilo que luto
Conheço a minha destreza.

O resultado tem de ser bom
Não acho o touro medonho
Depois direi a alto som
Concretizei o meu SONHO!!!!!
.
Magnólia, Eaux Saints, Maia
.

2009/08/01

Apelos do(s) Sinos

Enchente histórica do Rio Sinos
(ver no final o último link)


Com beijos iluminados
O sol acorda a cidade
Pelo rio do Sinos criada
Os ruídos despertam a vida
As ruas desenham-se de gente
O rio já foi a nossa rua
O ronco dos automóveis
O barulho do trem
O ônibus freia na parada
O sino toca na matriz
Na igreja do relógio
Sons se multiplicam
Um regente invisível
Dirige o concerto urbano
O vento ondula as águas
Do nosso Sinos
O barulho da avenida
Sufoca o canto dos pássaros
E onde está o Rio do Sinos ?
O gás carbônico desafia o oxigênio
Para mais uma maratona
Motoristas atravessam a ponte
E nunca olham para o Sinos
Em silencioso protesto
O rio vê seus peixes morrerem
Quem se importa?
É só água
Toma-se água mineral
Mais cloro nela
Ó moço do Semae
Assim a coisa vai ...é só água
Os prédios antigos e solenes
Fitam a rodoviária e perguntam
- O que fazemos aqui ?
Que cidade é esta ?
O que fazem com o Sinos?
Despertem consciências
A ordem do dia é preservar
Cuidar reclicar amar
Não envergonhem os nossos ancestrais
Urbanidade fraternidade atitude
Renascimento e humanização
Renovada consideração
Cotidianamente estimular e criar
Em cada mente em todo coração
O amor pela nossa cidade
Nascida às margens deste lindo rio
O Sinos pode recriar a sua história
E precisa de nós para esta vitória.

Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.
.

2009/07/25

Respeito, precisa-se!!!


Há quarenta anos
Que me pisaram
Pela primeira vez
Mas, há séculos
Que me cuscam
Indecentemente
Já não bastavam
Os mexericos
Das velhas
A benzer-se
Atrás das janelas
As crendices
Dos feiticeiros
A babar-se
Prás panelas
As patetices
Dos amantes
A lamber-se
Ao meu luar

Tenho agora
Que aguentar
Com pesquisas
De cientistas
Com intrigas
De jornalistas
Que, não satisfeitos
Em me explorar
À superfície
Em expor
A minha nudez
Em cada quiosque
De esquina
Forjando
Nos canais das TVs
Mais umas patranhas,
Ávidos, cismaram
Em me esburacar de vez
Espiolhando
As minhas entranhas!?

Querem água!?
Mas onde é que já se viu disto?
Ide pra Marte
Ou pró raio que vos parta!
Ou então, ide ao Totta !!!
Já não se distingue
O público do privado?
Pensam que sou
A vossa avó torta?
Lá por andar
De quarto em quarto
E, de vez quando
Aparecer cheia
Pensam que ando a pedi-las?
Suas mentes vergonhosas
Que não concebem
Mulheres lindas
Independentes
Corajosas
Inteligentes
E ainda assim
Decentes!

Ai, ai... Ai, ai !!!

Qualquer dia...
Mandam-me a ASAE
E lá vêm com a face oculta
Multar o meu lado escondido
.

2009/07/17

Vazio



Desgraça, desgraça
É ter-se nascido com tudo
E viver sentindo que não se tem nada!
.
in Desgraça, Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

2009/07/14

Tanto stress, até dá sono... Zzzzzzzzzz


Não sei para que lado me hei-de virar
Se me concentro nas reclamações
Na estatística, quadros de excel
Nas videoconferências, reuniões
Se leio no ecrã ou imprimo no papel
Se ligo ou vou prá informática
Se como uma maça ou vou ao bar
Se me envolvo nas conversas
Dos colegas, amigos e amigas
Nos seus problemas da vida
De saúde ou das intrigas
Se só ouça ou conte ainda
Anedotas mais perversas
Ou se me esqueça do hospital
E só pense na família
Nas consultas, nos remédios
Nos talões da farmácia
Nas sessões de fisioterapia
Na roupa das camas
Na cadeira de rodas
Nos passes do autocarro
Nos carregamentos de telemóvel
Nas compras do supermercado
(Ah! E a pasta dos dentes)
Na angústia de me esquecer
De mais alguma coisa
(Ah! E uma dúzia de ovos)

E se pensar no mestrado?
Nos autores, nas teorias
Ou na análise de conteúdo
Das entrevistas dos presos?
Nos muros da cadeia
Ou naquele prisioneiro?
Meto logo a parte empírica
Ou começo pela metodologia?
Faço ou não a comparação
Com a União Europeia?
Mas se não encontro nada
Da reincidência em Portugal
Muito menos no estrangeiro...
(Ah! E detergente pr'a louça)
Já estou farta de pesquisas
Tenho os olhos a arder
Vou à net ou à biblioteca?
(Ah! Já me esquecia
Das botas no sapateiro)
Vir outra vez carregada
Com uma sacada de livros...
Mas não sei se vai chover
Levo sapatilhas e vou de metro
Ou sapatos e levo o carro?
Aquele pneu está em baixo
Primeiro, vou à oficina
Ou vou meter gasolina?
(Ah! E um pacote de sal)

E se te pedisse boleia
E fôssemos daqui p'ra fora?
Estendia-me, assim, na areia...
E deixavas-me dormir... Zzzzzzzzzzz
.

2009/07/11

Amigo, amiga


Chamo-te meu amigo
Minha amiga
Não porque sejas
Propriedade minha
Mas porque és querido
Ou querida
Do meu coração
.
A amizade consciente
Não aprisiona
Tampouco se apropria
Apenas ocasiona
Partilha de êxito ou frustação
De tristeza ou alegria
.
Sentimento nobre
Ternurento regaço
Ombro providencial
Beijo ou forte abraço
Qualquer gesto ou rito
Sejas rico ou pobre
Está ao teu alcance
Aproveita, pratica, confia
.
Abre o teu peito
E deixa-te levar
Por esta sensação
Que me propicia
Além de lágrimas ou riso
Além da homeostasia
Uma passagem segura
Para a paz de espírito
Qual sombra reconfortante
De árvore no calor do verão
Ou lago cristalino de água pura
.
Verinha, São Leopoldo (Brasil) e mulher lua, a quatro mãos
.

2009/07/04

Saltando muralhas


Crianças ainda
tal qual super homem
Somos capazes de voar sobre o mundo
Vencemos qualquer barreira
Conquistamos tudo de forma mágica
Num piscar de olhos
.
Quando jovens
Somos fortes e poderosos
Capazes de correr, saltar, pular obstáculos
Mesmo nas dificuldades imensas
Tudo fazemos para atingir
Os mais audaciosos objetivos
.
Na maturidade
Sabemos que somos menos
Do que pensávamos
Os nossos alvos são readequados
À nova estrutura física e mental
.
Na velhice
Contabilizamos perdas e lucros
Vemos corpo e forças a definhar
As possibilidades a estreitar
Adequamo-nos a outra realidade
.
Termos um tecto para morar
O amor da família a nos amparar
A reforma a manter-nos
Dá-nos a noção de como somos
Bem aventurados
.
Carmen, São Paulo (Brasil)
.

2009/06/30

Fugaz

Resposta ao desafio da Carmen
*
*
*
Aos saltos no crepúsculo
Passo pela vida
Evitando ferida
*
*
*

2009/06/27

Jogar no escuro

.
Pairar fora da rede
Não é de aconselhar
Quem vive sem rede
Acaba por se quebrar!
.
Quem sem rede vive
Sabe que cairá
Em queda livre
.
Questão de escolha:
Ou se tem rede
E vive-se seguro
Ou sem ela
Dá-se um mergulho...
No escuro!
.
Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

Alienação


*
Oh! Quem me dera deitar
Não sair da horizontal
Sem chão, tecto ou paredes
Não sentir a terra rodar
Na demência habitual
*
E, sem me inquietar
Com guerras, fomes ou sedes
Em alheamento total
Pairar fora das redes
Do controlo social
*

2009/06/24

S. João do Porto, o ano inteiro



O Porto está a ficar velho
É preciso um Porto novo
Aqui vai meu conselho:
Dêem o Porto ao povo!
.
In "Abram o rio, abram o mar", Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

2009/06/18

Pudor


Na minha cozinha, pela janela
Vejo uma rosa branca, tão bela
Perfumada, adorável companhia
Sem ela, tão feliz não estaria
.
Esta flor menina, entreaberta
Revive em mim e desperta
Uma mocidade não vivida
Por tanto sofrimento infligida
.
Sinto-me a donzela de branco
À espera do amor, puro e franco
Contendo o arroubo do desejo
.
Com lábios medrosos, entreabertos
Que, timidamente, temem ser descobertos
Fogem, escondem-se em recatado pejo
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
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2009/06/13

Uma opinião como outra qualquer

Circula na Net o relato de uma professora de matemática que vou transcrever, para a partir dela podermos desenvolver algum raciocínio objectivo.
O exemplo dado não é mais do que o relato, feito por imagens, da evolução do ensino da matemática em primeiro lugar e das demais disciplinas em particular em Portugal.
Foi um episódio passado num supermercado que deu origem a ao “desabafo” daquela Senhora Professora. Quando entregou à balconista 2 euros e mais 8 cêntimos para pagar uma despesa de 1,58 euros, para facilitar os trocos e esta teve que chamar o gerente que se viu aflito para conseguir explicar-lhe que só tinha que devolver 50 cêntimos.
Escreveu então:
-1. Ensino da matemática em 1950:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda. Qual é o lucro?
-2. Ensino de matemática em 1970:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda, ou seja, € 80,00. Qual é o lucro?
-3. Ensino de matemática em 1980:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é € 80,00. Qual é o lucro?
-4. Ensino de matemática em 1990:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é € 80,00. Escolha a resposta certa, que indica o lucro: ( ) € 20,00 ( ) € 40,00 ( ) € 60,00 ( ) € 80,00 ( ) € 100,00.
-5. Ensino de matemática em 2000:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é € 80,00. O lucro é de € 20,00. Está certo?( ) SIM ( ) NÃO
-6. Ensino de matemática em 2008:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00. O custo de produção é € 80,00. Se você souber ler coloque um X no € 20,00. ( ) € 20,00 ( ) € 40,00 ( ) € 60,00 ( ) € 80,00 ( ) € 100,00.
Porque entrei para a escola primária em 1943, nos anos 90 dei aulas numa escola militar e até hoje tenho seguido o percurso escolar dos meus netos, encontro nesta elucidativa apresentação o retrato fiel da evolução do ensino no nosso país. Como não é a primeira vez que referindo-me a este assunto, coloco o treino do raciocínio em primeiro lugar em detrimento do treino da memória (ó cabos, ó rios e seus afluentes, ó linhas férreas e ramais, ó capitais de distrito e cidades, ó serras), não posso deixar de afirmar que ao menor esforço de memória deveria ter correspondido maior adestramento do raciocínio ao invés da sua quase anulação, como demonstrado neste elucidativo relato.
Se a integração europeia nos colocou perante a obrigação de cumprir metas no que respeita ao aproveitamento escolar o caminho a seguir devia passar por revolucionar os métodos de ensino e/ou aprendizagem, adaptar os currículos às necessidades numa perspectiva de futuro, não difícil de prever e reciclar a classe docente com métodos modernos de técnicas de instrução, que sem impedir a liberdade de improvisação dos professores pudesse melhorar a sua transmissão de conhecimentos.
O facilitismo foi a palavra de ordem. O coeficiente do aproveitamento escolar subiu e aproximou-se dos níveis Europeus.
Melhorou por acaso o ensino? Ou dizendo de outro modo: Os alunos acabam os seus cursos mais bem preparados?
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António Mata, Algueirão-Mem Martins (Sintra)
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2009/06/09

Estações


Imagem do filme: Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera
Realização: Kim Ki-duk (2003)


Sou estação de dias
Os chegados, vividos
Os vividos, partidos
De mim emigrados.
No cais, fico à espera do futuro...
.
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In "Dias", Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
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2009/06/08

Adormecer


Adormecer
Na quietude da noite
Só para poder te ver
Te encontrar
Nos meus sonhos
Onde és tão presente
.
Adormecer
E sentir o pousar leve
Da tua mão macia
Pulsante carícia
A deslumbrar-se na luz
Da Lua cúmplice
.
Adormecer
Invisível
Faço-me bruma
Perfumada de manacá
A suavisar teu corpo
Em gentis carinhos
.
Adormecer
Em conjunção serena
Sem perturbar teu sono
Na despedida sem dor
Vestida de verdesperança
Sem o cansaço do voltar
.
Adormecer
Meditativa na busca
Da estrela do teu olhar
Esperar a partida do dia
Renascer quando a noite vem
Na sede do mel do teu beijo
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Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
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2009/06/06

O marmanjão

Sobremesa preparada pelo Marmanjão
no dia dos Namorados (14/02/2009)
para a Marmanjinha
*
*
Quase me apeteceu tecer um comentário apreciativo, quando ele, sem preconceitos de espécie alguma, confessou que gostava dela como nunca gostara de nenhuma outra. Nem de nenhuma daquelas com quem casara e tivera até filhos. Tinham sido duas sucessivas a dormir com ele na cama, durante o tempo em que andou atado pelos nós. Um deles sagrado, como exigiam as circunstâncias: casamento tinha de ser pela igreja. Era para o laço não se desprender com facilidade.
E agora, ali, com o sol a bater-lhe na cara, enquanto a enlaçava pela cintura, junto à praia, confessava perante uma multidão que, de vez em quando, até tinha ciúmes dela. Imaginasse-a com outra pessoa e logo um bichinho malévolo lhe corroía o coração, deixando-o mais picado do que um batalhão de traças quando resolvem atacar boa fazenda. Nunca lhe tinha acontecido e foi quando soube que, finalmente, estava irremediavelmente apaixonado. Ela já não era muito jovem, mas conseguia, como nenhuma outra, arrancar poesia e música das cordas da sua sensibilidade de homem maduro, desencantado durante demasiado tempo com o amor. Até que ela surgiu. Foi um acaso que os colocou frente a frente. Na altura sentia-se como um moribundo, um náufrago a quem ela lançou com afinco uma tábua de salvação. Agarrou-se com esperança.
Agora, ali, junto à praia, enlaçando a mulher pela cintura, era enternecedor ver aquele marmanjão de meia-idade a confessar em público o seu amor, trazendo à memória dos presentes o velho ditado sobre o amor e sobre a idade. Nunca é tarde. Tinha sido por causa disso que se divorciara da última companheira. Dormir na cama com uma e amar outra era uma traição que já não suportava mais. Nem que deixasse de ter na cama todos os dias uma mulher para passar a ter uma outra que só podia ter de vez em quando.
Fora uma agradável surpresa verificar que aquele homem, considerado por muitos irascível e fanfarrão, não passava de um romântico camuflado num metro e oitenta de altura, que rondava o tímido e quase o bonacheirão. Fora um tiro certeiro, uma seta enfeitiçada de amor que o deixara naquele estado de enamoramento em que o toque de campainhas de portas se assemelhava a melodias de festa tocadas por harmoniosos sinos de carrilhão. Era o amor. E o amor é: dormir uma noite com ela quando essa noite vale por sete…Ou por uma vida…
Depois, ficou a lembrança de uma pequena história, que hoje me apeteceu contar assim como um tirinho…
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Rafaela Plácido, em dia de bonança e esperança
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2009/06/01

Algures, em S. Paulo, daqui a 50 anos...


O meu outono chegou
Antes do tempo.
*
Quando percebi,
As folhas do livro
Da minha vida
Flutuavam pelo ar
E espalhavam-se pelo chão...
*
Então, antes que alguém
As pisasse
Ou seu conteúdo
Se perdesse para sempre,
Decidi passá-las a limpo
Em livro novo.
*
E, entre folhas secas e amassadas,
Encontrei vocês que me sorriam...

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Neli, São Paulo (Brasil)
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2009/05/30

Menino ou menina...



Cresce dentro de mim,
qual ervilha ou feijão,
mas já ocupa um lugar,
dentro do meu coração!!!

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Isis, Lady of the Hour (Matosinhos)
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2009/05/20

Auto-conhecimento

*
*
Melhor amigo não tenho
Que a própria consciência
É com ela que me avenho
No bem e na indecência
*
*
In Consciência amiga, Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
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2009/05/19

A gorda

A casa apresentava alguns defeitos de construção. O ralo da cozinha estava submerso debaixo do fogão, que era em canto. O escoadouro tinha de ser adivinhado. Usado é que nunca.
Foram indicações da dona, quando comprou o apartamento, ainda em construção, e ninguém soube ou não quis alertá-la para algumas impossibilidades técnicas em satisfazer as exigências dela. Foi por isso que o futuro lhe trouxe problemas. Ela quis a cozinha assim e, bajulada pelo comprador teve-a assim mesmo. Mais do que complicada, a construção da casa, ao menos em alguns sítios, era arrevesada.
Depois, era o marido que se estava nas tintas para um sem número de coisas: um prego que se solta, a silicone que, de repente, começa a deixar vazar. Coisas assim, como a caixa eléctrica que, desde o nascimento da casa, ficou soterrada na parede do quarto de banho, sob o espelho, e quando os circuitos eléctricos entraram pela primeira vez em colapso, lá teve que funcionar um grosso íman para arrancar o vidro e fazer o necessário conserto na electricidade.
Desta vez era o gás. A cidade adoptara recentemente as condutas debaixo da terra para conduzir a todos os lares esse invisível e mortífero fluído e quem quisesse aderir ao novo sistema tinha de recorrer a uma empresa para transformar o miolo de aparelhos como o esquentador e o fogão, adaptando-os às exigências do novo combustível.

O prédio inteiro tinha-se decido por esta nova comodidade, numa das últimas reuniões de condomínio e o marido dela, dessa vez, também presente. Não foi contra. Era menos uma preocupação. Andar de bilha para cá e para lá já não dava com nada, ele que sempre morreu por não fazer nenhum. Para isso lá estava a escrava. O jantar aparecia feito sobre a mesa, na gaveta tinha sempre cuecas, meias e peúgas lavadas. Era o que a mulher fazia, enquanto se sentia engordar e depois o marido lhe atirava isso à cara, quase com desprezo. Chamava-lhe velha e gorda, sobretudo quando chegava do treino semanal das corridas à beira-mar com os amigos, a cheirar a suor, faminto e a reclamar o almoço. Era uma acusação por ela não ter tempo para essas frescuras.Quando soube que os homens do gás tinham de ir lá casa fazer as transformações necessárias, como sempre, delegou na mulher a responsabilidade de estar presente.
Ela que andava há tempos a remoer sobre a foca que tinha em casa, deitada constantemente no sofá a fazer zapping na televisão e sobre os seus desatinos, desencadeados quase desde o início. Sentia, mais do que nunca, que o casamento de ambos fora um consórcio a prazo e o divórcio luzia no horizonte mais forte do que um pirilampo brilhando na escuridão da noite. Era apenas uma questão de tempo, até ela chegar àquele limite de quando já não há mais volta e quando o caminho, dessa vez, tem de ser para a frente e sem recuo. Não devia deixar-se influenciar pelas reconciliações do passado, que nunca a tinham levado a lado nenhum.
Os homens que iam tratar dos electrodomésticos tocaram-lhe à campainha, mal entrou em casa, depois de sair um pouco mais cedo do emprego. Eram dois, um deles um brasileiro que nunca perdera, nem o sotaque nem a sedução em que os brasileiros são exímios.
Depois, o outro, o português, vendo a carga de trabalhos que o colega tinha pela frente, tratou de dar à sola, propondo-se voltar apenas quando tudo já estivesse solucionado. Nessa altura ela não teve consciência da gravidade das coisas. Mas, aos primeiros sinais de que nada iria ser fácil tratou de avaliar a situação.
Mal o brasileiro arrancou o fogão, pelo buraco que ficou à mostra, viu um mar de azeite que se tinha escapulido pelo silicone já gasto e foi sem perda de tempo que se muniu do balde, da água, do detergente de limpeza e dos esfregões de arame, enquanto, deitada de barriga sobre a lura aberta, começava a escanhoar o lixo até ao vértice do triangulo, formado pela implantação do fogão, que, não fora a transformação do equipamento, morreria ali até às ruínas da casa, quando a civilização deixasse cair as construções, como se tudo fosse um imenso Coliseu igual ao de Roma, demolidas pelo terramoto dos tempos. E o brasileiro ali a mirar-lhe o traseiro, enquanto ela, certa, entre outras coisas, de estar a atrasar o já difícil trabalho ao homem, lhe pedia desculpa, obtendo como resposta que, só pela visão, tudo estava a valer a pena. Incluindo o atraso.
E ela ali, sem poder recuar na tarefa que num Natal passado fora congeminada pelo acaso e que um dia teria de resolver. Tudo ocorrera numa ocasião em que derramara ali por descuido quase uma garrafa inteira de azeite. E, por agora, não lhe restava outra alternativa senão limpar e limpar, fingir-se inocente e ignorar a cantada.
Na altura, quando a garrafa se partira, lembrava-se de ter pensado no mito urbano que atribui azar ao facto de se verter azeite, mas hoje, ali e agora, via claramente que, azar, azar foi mesmo o ter de limpar aquele mar de lodo e gordura. Ainda por cima, com um brasileiro sedutor a admirar-lhe o traseiro, encantado com aquele bodo erótico que lhe aparecera pela frente sem ninguém contar. Para ela, todo o resto eram pormenores irrelevantes. Era preciso resolver aquilo.
A seguir, o trabalho do homem complicava-se, como se previa, e foi quando ela percebeu que se prolongaria até à eternidade caso não tomasse providencias. Já constatara que era tecnicamente impossível uma criatura sozinha levar a bom porto aquele imbróglio que o construtor deixara na cozinha para sempre. Uma vez que o seu traseiro já se insinuara o suficiente junto do brasileiro, pensou que exibi-lo mais uns instantes não iria fazer diferença.
O que queria era, o mais rapidamente possível, ver tudo no sítio outra vez, e foi de mangas arregaçadas que se meteu de novo no buraco, ditando a sugestão: era necessário que uma mão segurasse na curta ficha do fogão, lhe atasse um fio e que outra mão agarrasse o dito fio, no outro lado, de onde as gavetas do armário já haviam sido removidas e em que o buraco se via, depois do corte que os construtores de armários tiveram de lhe fazer para que a tomada ficasse acessível e utilizável. E a mão dela era a mais pequena. Espapaçada no buraco, com as pernas sobre o cimo do fogão que, entretanto, tivera de ser aproximado mais um pouco da entrada por causa do pequeno comprimento do fio eléctrico, o chão estava agora todo ocupado e ela não tinha outro sítio para por as pernas senão a parte superior do malfadado fogão.
Naquela estranha posição, depois dos detergentes para remover a gordura, sentiu as mãos deslizarem sobre azulejo do chão, começando a perder o equilíbrio, enquanto pedia ao homem um pano seco. Teve de lhe indicar o sítio onde o ir buscar. E, quando a primeira dificuldade ficou sanada, disse-lhe para prender um cintinho delgado de umas calças velhas lilás na ficha que, quiseram as coincidências e a providência divina, esteva mesmo ali à mão de semear, no cesto vazio da fruta.
O brasileiro, enquanto obedecia, perguntava-lhe se ela não estava a machucar-se e, finalmente, ele do lado das gavetas e ela do lado do buraco do fogão, mais a sua mão pequena, com a tira segura, as mãos de ambos encontraram-se, até já não mais ser possível perder-se a ficha presa a lilás, lá do outro lado da mão brasileira. A ponta da tira, do lado das gavetas, dava ao fio comprimento suficiente para a próxima ligação à tomada, quando ela saísse do buraco, de barriga para baixo como sempre estivera, e o fogão se lhe ajustasse para as ligações finais.
Havia que sair daquela posição de sapa, recuando como um caranguejo, ali com o chão a escorregar-lhe outra vez debaixo das mãos, enquanto perdia o equilíbrio.A situação era de risco e salvá-la daquele chão escorregadio tinha mais a ver com bombeiros do que com especialistas de electricidades, gás e esquentadores. Contudo, só estavam ali os dois e o homem, sem fazer o pedido de autorização - as circunstâncias não eram de molde a perder tempo - puxou-lhe as pernas, começando desde o calcanhar até cima, com o cuidado de quem está numa cama a acariciar uma mulher por quem estivesse apaixonado, sem que ela pudesse aconselhá-lo a ter calma com o andor.
No fim, quando já estava de pé, o brasileiro que ainda não tinha perdido o sotaque, olha-a com olhos de carneiro mal morto e diz-lhe, naturalmente:
- Sabe, a senhora me excitou, viu!?… Desculpe… Não fiz por mal…
Com um sorriso irónico a bailar-lhe, não tanto na boca como na cabeça, entendeu desvalorizar a questão, enquanto o homem prosseguia a seguir com o trabalho. Depois, sempre divertida, deu consigo a lembrar-se do marido foca que passava os dias no computador a fazer zapping e a chamar-lhe gorda, e pensou que, querendo, tinha ali uma posição soberba para se vingar de anos e anos de das traições e de insultos. Ainda que numa vulgar rapidinha, após saber que, mesmo gorda e a cheirar às vezes à cebola dos estrugidos com que lhe fazia feijoadas, ainda era capaz de despertar o desejo de um homem.
Sentiu-se mais sensual do que nunca e, sempre de sorriso nos lábios disse para com os seus botões:
- Anda lá, Óscar, hoje foi o teu dia de sorte… Vais permanecer ainda algum tempo com a cabeça sem enfeites. Valeu-te o homem de gás não me fazer tremer nem um pouquito as pernas…. Mas, não me voltes a chamar gorda!...

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Rafaela Plácido
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2009/05/16

O casal

Flores do Jardim da Verinha
.
.
São duas flores unidas
Tão belas nascidas
Juntas fizeram o mundo mais belo
E neste carinho singelo
Nasceram para maravilhar
Os olhos dos passantes
Que de minha simples calçada
Viveram momentos no paraíso
Roubaram tantos olhares
Em sua breve existência
Parece que sempre as vejo
Abraçadinhas, ternas,
Como se fossem uma só
A beleza é assim
Deixa em nós lembranças
Enternece e fica fotografada
Em nossos corações
..
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

Meus piratas desiguais


O mais novo
*
Eterno rapaz
Engraçado, social
Diz sim, mas não faz
.
.
O mais velho
*
Adulto, cedo
Feitio agridoce
Venceu o medo
.
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2009/05/10

Maio, em festa


"Chansons de Printemps"
William-Adolphe Bouguereau, 1889
*
Mãe de dois filhos
Amor igual de Maio
Distintos trilhos
*

2009/05/09

A bela face do amor

A verdadeira beleza das pessoas, está em seu interior, em sua alma. E só o amor faz esta beleza toda desabrochar e se exteriorizar.
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Ame e sinta-se belo(a).
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Ele era baixinho, gordo e meio calvo, apesar de tão jovem. Ela era loura, alta, esguia, tinha lindos olhos azuis, uma pele perfeita e uma voz linda.

Ele a amava, secretamente e pensava: "O sapo admirando a estrela. Ela jamais irá me amar."

Ela admirava a voz linda dele. Se ele não fosse tão inteligente, tão brilhante cantor e compositor, um aluno tão fantástico, talvez pudesse vir a amá-la. Assim pensava ela.

A juventude passou para ambos. Certo dia, ele, empresário de sucesso, encontrou-a na Caixa Federal. Apesar dos anos, ela ainda era bonita. Ela estava lá, bem desesperada, precisava renovar o contrato de financiamento da casa, após os gastos com a doença e a morte do filho, não conseguira pagar várias prestações. Ele estava desenganado pelos médicos, com um câncer, em estado terminal. Seria a última vez que a veria. Então armou-se de toda coragem, que lhe restava e se aproximou dela:

- Maria, você continua linda. Descobriu a fonte da juventude? Como está, amor da minha vida?

Ela olhou para ele espantada e respondeu:

-Enfim, o grande cantor de minha juventude, o aluno nota dez se digna a falar comigo, quanta honra. Eu ? O amor de sua vida? Será que mereço tanto deboche. Já não fez isto comigo o suficiente ? Deixe de ser tão malvado. Tenho problemas a resolver e muito sérios. Tenha piedade, José.

Ele se ofereceu para ajudá-la e revelou-lhe toda a sua paixão juvenil. Ela ficou espantada e seus olhos se encheram de lágrimas. Nunca o havia achado feio. Ela o via como alguém brilhante e lindo. Feia era ela, pernas finas e desajeitadas, morrendo de medo, tímida, se achando inferior, pobre, sempre com as mesmas roupas surradas e feias. Uma aluna medíocre e comum. Ela, que jamais ousara olhar para ele.

Como os complexos e a insegurança podem afastar as pessoas e impedí-las de viverem lindas histórias de amor. Como Maria e José poderiam ter sido tão felizes.

Ela conseguiu uma boa renovação do contrato de financiamento da casa. Ele era um grande amigo do gerente. No elevador, se abraçaram comovidos. Ele reparou, que ela era da altura dele e olhando para o espelho de fundo, viu um casal bonito e se sentiu jovem e feliz por alguns minutos.

Uma semana depois, ela viu o convite do enterro dele no jornal da cidade. Chorou, beijou a foto dele e disse:

- Eu te amo, José querido!

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Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
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2009/05/03

Porque, dizem, é o dia da mãe...

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Mais uma vez, um tributo à minha Joaquina, escrito em 2005, publicado aqui em 2007


http://luaafricana.blogspot.com/2007/08/paula-e-joaquina-duas-mulheres.html

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2009/05/01

Insatisfação (continuação)


Liberdade, onde estás?
Que eu tanto te procuro…
Quero-te p’ra viver em paz
E não ter medo do escuro
.
Neste buscar e achar
E neste ter e perder
Ando sempre a procurar
O que nunca chego a ter

Achei dias de nevoeiro
Com auroras de claridade
Mas nunca nada por inteiro…

As desejadas liberdades
Estão nas mãos de carcereiros
Como que atrás de grades
.
Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

2009/04/29

Insatisfação


Liberdade, onde estás?
Que eu tanto te procuro…
Quero-te p’ra viver em paz
E não ter medo do escuro
.
Neste buscar e achar
E neste ter e perder
Ando sempre a procurar
O que nunca chego a ter
.
Figas de saint pierre de lá-buráque, Gondomar
.

2009/04/25

25 de Abril de 1974


Nas mãos de bravos soldados
Viram-se armas feitas vasos
Grândola Vila Morena
Já podia ser cantada
Sem ser à boca fechada
Na rua, de peito aberto
Nunca estivera tão perto
A liberdade almejada
.
Para Lá da Lua, Espaço sideral
.

2009/04/19

Hipocrisias


Escrevo banalidades
Como outros já escreveram
Cometo barbaridades
Como outros já cometeram
.
Músicos tocam belas melodias
Poetas fazem belas poesias
Mas o mundo (meus amigos)
Está pior todos os dias
.

in Versos hipócritas
.
Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
.

2009/04/18

Verdes ilusões


Me chamaste de corajosa
Por enfrentar a noite gelada
Em minha saga amorosa
Era tão gratificante ser amada
.
Paramos na esquina discreta
Não sei se no céu havia lua
Só lembro de tua jura secreta
Para eu ser eternamente tua
.
A tua boca sedenta e sôfrega
A procurar a minha
Pobre de mim, frágil e trôpega
.
Verdes anos, adoráveis ilusões
Tantas esperanças eu tinha
De amor vibravam nossos corações 
.
Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
.

2009/04/16

As fases da lua


Já passei por todas as fases
Fui criança, do jeito infantil
Quando era lua nova
Menina, pueril

Cresci no quarto crescente
Desabrochei primaveril
Plena de sonho e quimera
Rapariga, juvenil

Fui bela pela lua cheia
Quando passei ao estado floral
E gerei fruta excelente
Mulher, maternal

Minguei no quarto minguante
Quando me fizeram mal
Mas sobrevivi e venci a prova
Dura, racional

Contigo vivo uma nova lua
Adocei, virei uva moscatel
Prendeste-me na tua teia
Apaixonada, mel

E, ainda que pareça eclipsada
Com tantos afazeres, a tropel
Lembra-te que sou sempre tua
Até à morte, fiel
.

2009/04/15

Porque te sinto a meu lado


Porque te sinto a meu lado
Os dias são mais risonhos
Flutuas nos meus sonhos
Num voar borboleteador
Dou-te todo o meu amor
Dou-te carinho e amizade
Se sais fica a saudade
E a ânsia do regresso
É por isso que te peço
Que continues como és
Estarei sempre a teus pés
Com alma de adolescente
O meu coração não mente
Ele sabe bem o que quer
Vejo-o sorrir contente
Porque és a minha mulher
.


Para Lá da Lua, Espaço sideral
.

2009/04/10

Ela está à tua espera


Mortinha por entrar
Na vida de cada um
A felicidade espreita
Afoita, em cada esquina
E, com ar de satisfeita
Qual miúda traquina
Interpela, faz convites
E é perder a cautela
E aceitar os palpites

A felicidade é plural
Todos a podem ter
Senti-la a cada momento
Com o rosto radiante
Basta só estar atento
Parar por um instante
Para a encontrar a sorrir
E é não ter medo dela
Não recuar, não fugir

E, afinal, é tão fácil
Ela está em cada sítio
No rosto duma criança
Nas rugas duma mulher
Em cada remota lembrança
No trabalho, no lazer
No vale mais profundo
No pôr-do-sol no mar
Ela anda por todo o mundo

Aninhada, escondida
Por detrás duma duna
Num simples grão de areia
Do mais ardente deserto
Ou num dorso de baleia
A cruzar o mar incerto
Ao sabor da tempestade
A felicidade chama-te
Não importa qual a idade

A felicidade é ladina
Mas, por vezes, entristece
Quando a põem de lado
Fingindo não a querer
Confundindo-a com pecado
De tão habituados a sofrer
Mas quem se autoflagela
A pensar no paraíso
Desengane-se, vá atrás dela
.
Ela está à tua espera!!!
.

2009/04/04

Triste solidão


Eu disse, tu disseste
Palavras ocas
Impensadas, balofas
Que mais não são
Que tretas e trapaças
Trocas e baldrocas
Manobras de diversão
Que não têm outro fim
Que matar a solidão

Enquanto andam no ar
Preenchem a mente
Alimentam a vizinhança
Com mesquinharias
Cusquices sem sentido
Porque, para certa gente
Vale mais difamar
E ser difamado
Que ser esquecido
.

2009/04/01

Primavera dividida


Desde a infância
(Ai quem me dera)
Apesar de não crente
Sinto sempre a imponência
Da festa da Páscoa
Que divide a Primavera:
Primavera antes da Páscoa
Penitência
Primavera depois da Páscoa
Indulgência

A Páscoa influencia
A vida em sociedade
Não é uma questão
De meteorologia
Que chuva ou sol
Vento leve ou tufão
Frio ou súbito calor
Há de Março ao Verão
Não importa a temperatura
Ou grau de humidade
É uma questão de postura

A Páscoa é divisória
Mental e do foro social
Foram séculos de história
De calendário cristão
A cronometrar as vidas
No controlo do corpo
A impor balizas
A fazer marcação
Ora agora perdoas
Ora logo infernizas
Receitas de orações
Contas de terço, loas
Caixas de esmolas
Missinhas e sermões

Primavera primeira parte:
Tempo de Quaresma
De imagens veladas
Por trás de panos roxos
Velhas em meditação
De cabeças tapadas
Barrigas em jejum
Nada de carnes
Um peixinho, um atum
O deambular das procissões
Em ritmo tipo lesma
De anjos e anjinhas
Longas peregrinações
A santos e santinhas
Por caminhos sem luz
Os velhos e coxos
De joelhos, a rastejar
Os cristos derreados
Sob o peso da cruz
As mãos pregadas
As lanças no peito
Espinhos cravados
O sangue a gotejar
Do rosto escorreito
Tudo em prol da alma
Que o corpo não se salva

Primavera segunda parte:
Já foram os ramos
Já passou o compasso
O beijo no crucifixo
O folar aos afilhados
O beija-mão aos padrinhos
A oferta aos padres
Desfeitos os tapetes
Das pétalas de flores
Cumpridas as promessas
Foi-se o sagrado
As igrejas e capelas
O bolor das sacristias
Venha o profano
Acabou a introspecção
Venham os amores
Que a alma está safa
Saia-se para a rua
Viva a revolução
Haja solidariedade
Demos todos as mãos
Em prol da humanidade
Dancemos à luz da lua
Vivam os cravos de Abril
Os abraços e canções
O dia do trabalhador
E o dia de Camões
Em tempo primaveril
P´ra gáudio das multidões
Das agruras da Quaresma
Que só restem as trivelas
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2009/03/28

O anjo disfarçado

A professorinha olhou e revirou o papelucho na bolsa, mas era aquele endereço mesmo, Rua das Camélias, 91. O trocador do ônibus não a enganara. Mas, que rua tétrica, santo Deus. Era tão longe, este bairro com nome esquisito. Lembrara a voz vacilante da moça ao telefone, depois ligara de volta e viera a mensagem: este telefone não existe. Era de arrepiar. Mas, a esperança de um dinheiro extra fizera dela uma pessoa de coragem indômita, igual ao título do filme, que a avó sempre falava. Umas aulas particulares sempre rendiam bem. Vida de professora é dureza. Mais uma aluna, mais uma ajuda para comprar o seu sonhado PC.
Na esquina, um bar e na única mesa ocupada, aquele homem de terno, chapéu e guarda-chuva pretos. E o cheiro de suas roupas? Pareciam ter saído da loja naquele momento, impecáveis. A pele era estranhamente branca e macilenta. Antes que ela perguntasse qualquer coisa, o homem lhe dissera:
"- Moça vá embora logo deste lugar, siga à direita e logo encontrará uma parada de ônibus, este passará mais próximo de sua casa. Não hesite, vá. Isto aqui é muito perigoso. O número 91 não existe."
Ela sentiu um calafrio e sem pensar muito, saiu quase correndo do local. Ela chegou na parada, no mesmo momento apareceu um ônibus salvador.Perguntou ao trocador e, de fato o ônibus passava próximo a sua casa. Então, mais calma, colocou os pensamentos em ordem e lhe surgiram perguntas: Quem era o homem de preto? Como ele sabia o endereço dela? O número 91 não existia mesmo na rua das Camélias? A última pergunta, o motorista pode lhe responde que não havia este número lá com residência, era só um terreno vazio. Há muitos anos, havia um bar neste local e depois de uma briga, fora morto o João Bilheteiro. Ele era um homem calmo, boa pessoa, meio excêntrico, pois andava de verão a inverno com um terno e um chapéu pretos, sem esquecer o guarda-chuva.
Chegou a sua parada, desceu atônita e estremeceu ao olhar para o ônibus, sentado em um banco atrás de onde estava, viu o chapéu do homem de preto. Eram cinco horas da tarde.
No outro dia, na manchete da primeira página do jornal, estava estampada a notícia: Outra vitima do tráfico de drogas. Violência e morte na rua das Camélias, no número 94, às cinco horas da tarde. A polícia conseguira prender um dos traficantes, mas uma bala perdida atingira uma moça. Ela pensou no homem de preto, uma sensação de gratidão tomou conta de seu coração e de sua mente. Fora salva por ele, talvez ele era um anjo disfarçado de João Bilheteiro.
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Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
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2009/03/22

Os dados estão lançados


Se eu fosse poetisa
Tu serias poesia
Quando escrevesse versos
Eras tu quem rimaria

Eu escolhia o tema
Tu construias o sentido
Eu misturava as palavras
Tu davas-lhe colorido

Eu parava num terceto
Tu lançavas uma quadra
Eu arriscava a quintilha

E vinhas com a sextilha
Eu apostava a oitava
Por fim, fazes-me um soneto
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2009/03/20

Primavera


Finalmente
Estás de volta
Sua traquina
Que me atormentas
Com o teu esconde-esconde
Anual

Há semanas
Que andas a rondar
Minha cretina
Que, por vezes, te enfias
Não se sabe aonde
Ocasional

Eis que hoje
Reapareces envolta
Numa aragem fina
De raios de sol aos folhos
Para te chamar
Pontual

Nada disso!
Quem queres enganar
Com esse ar de menina?
Conheço esse piscar de olhos
Com que te armas
Sensual

Tu, sozinha?
Adoras dar uma volta
Qual concubina
E lá vens com o Inverno
Só para me enregelar
Glacial

E não só!
Quando trazes o Outono
És mesmo cretina!
Estouvados, chuva e vento
Destroem as florinhas a brotar
Acidental

Só gosto
Quando te encostas ao Verão
Nua, ficas divina
Nas noites de amor aos molhos
Já posso dormir ao relento
Ideal

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2009/03/19

Sinais dos tempos


O homem da sociedade tradicional
Providenciava o alimento
Chegava a casa esgotado
Do grande esforço braçal
E do salário mal pago
Sem espaço p'ró sentimento
Vivia na família alargada
De matriz funcional
E profunda promiscuidade
Com uma profissão herdada
Nunca saía da terra
A não ser p'ra ir p'rá guerra

O homem da pós-modernidade
Trabalha sob pressão
Chega a casa deprimido
Ainda que não tenha vontade
De ser pai e/ou marido
Faz das tripas coração
Neste espaço de emoções
De família no afecto centrada
O trabalho de casa é normal
Entre tantas profissões
Conhece o céu e a terra
E prefere a paz à guerra
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2009/03/14

Dimensões



Da minha altura não quero tonturas ter
Da minha pequenês não quero rastejar


In "Não quero ser maior", Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
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2009/03/08

Para amar uma mulher



É preciso ter muito amor no peito

Para amar uma mulher

Ter uma dose infinita de respeito

Não é com um amor qualquer

Sem consistência, vazio

Não é assim que ela quer

Com rudeza ou desvario

Não se ama uma mulher

Lembre sempre: suavidade

Fale com ela, escute-a

Prime pela verdade

Seja atencioso, enterneça-a

Ser verdadeiro, é ser grandioso

Se você quiser

Com seu ato generoso

É tão simples amar uma mulher

Não faça dela um inalcansável ideal

Uma estrela fugidia e distante

Toda mulher quer ser humana e real

Quer um amor firme e constante

Você não precisa ser um heroi

Para ter o amor de uma mulher

Que é tão terno e raro, não doi

Se muito carinho, você lhe der

Nunca é tarde demais ou cedo

Para amar uma mulher

Não tenha medo

Mas, lembre-se: Só se ela lhe quiser!

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Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)

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À luta, mulher!


Levanta a cabeça, mulher!
Retira do fundo da raiz
A força que trazes escondida
E tens medo de mostrar
Não há nada a temer
Se só queres ser feliz
Olha pela tua vida

Assume essa personalidade
Que teimas em menosprezar
Nem que estales o verniz
Não te coíbas de pedir o céu
E pelo sexto sentido
Rege cada gesto teu
Impõe a tua vontade

Não te faças de morta
Nem temas o desconhecido
De par em par, abre-lhe a porta
Não receies protagonismo
Aproveita cada ensejo
Atira-te com frontalidade
E persegue o teu desejo

Enfrenta com coragem o boi
Fora com altares e andores
Que isso das santas já foi
Goza a vida com plenitude
Saboreia cada conquista
Cada batalha vencida
Não temas ser egoísta

Dá voz ao teu coração
Não ligues ao que o povo diz
E age em conformidade
Luta se tiveres razão
Reivindica os teus direitos
Sem queixinhas nem prurido
Concretiza os teus anseios

Combate os agressores
Aniquila-os sem rodeios
Agiganta-te, faz-te maior
Segue em frente, mulher!
E guarda o que tens de melhor
De mais puro e de mais belo
Para quem te merecer!
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2009/03/04

Sobrevivência



A vida real
É peça de teatro
Onde o actor
Com ou sem arte
Afivela a máscara
Conforme o guião
E o pastel do produtor

Por vezes, brilha
No papel principal
Noutras, de quatro
É ponto de alguém
E, na maior parte
(Que amargura!)
Simples figurante

Do belo improviso
Ao mero cliché
Da triste figura
De palhaço pobre
Ou da sacanice
Do palhaço rico
Depende o cachet

Na sua exibição
Seja dramático
Ou comediante
O cerne da questão
É provocar na plateia
Aplausos de pé
Mais que choro ou riso
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2009/03/01

Ruptura


Foram fatais a atracção
E a permanência
Da adrenalina
Que subia, incontrolada
Quando me vinhas ver
E nem me davas a mão

Demorou a constatação
De que a ausência
De te olhar na retina
Me tornava amargurada
E me fazia sofrer
De invulgar solidão

Adiou-se a integração
Da tua existência
Na minha rotina
Que estava organizada
Para me proteger
Deste mundo cão

Por fim, abri o coração
À tua insistência
E rasguei a cortina
Que mantinha cerrada
Para me absorver
Numa vida de paixão

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2009/02/28

Solidão


A pior solidão não é a perda de um amor
.
A pior solidão é nunca o ter encontrado
.
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Vera Linden, São Leopoldo (Brasil)
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2009/02/26

Máscaras do dia-a-dia


Maternal
Sentidos alerta
Rugas de preocupação
Gestos de ternura
Sorriso confiante
Paciência
Esperança no futuro
Mala de brinquedos
Tempo de magia

Amante
Olhos semi-cerrados
Boca entreaberta
Sedenta de paixão
Atitude sensual
Indolência
Gemidos no escuro
Caixinha de segredos
Tempo de loucura

Trabalhadora
Olhar atinado
Lábios contidos
Porte discreto
Atitude inteligente
Competência
Patrão pão-duro
Horas no degredo
Tempo de luta

Amiga
Atitude de escuta
Boca confidente
Postura descontraída
Sorriso rasgado
Irreverência
Afecto puro
Noites de folguedo
Tempo de alegria
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2009/02/24

Rasto


Vives como nasceste
Selvagem
Teus olhos
Lançam feitiços
No esconde-esconde

Ao de leve
Como um colibri
Moves-te de flor em flor
Delicado

Brota de dentro de ti
A alegria inata
Da criança descuidada
De onde a onde
De ironia salpicada
Humorado

Autodidacta
Passas, breve
Mas deixas um rasto
De embriagante odor
De alecrim aos molhos
Que perdura
Mágico

Como beduíno
Somes-te no deserto
Nefasto
Espraias-te na viagem
A céu aberto
Esquecendo compromissos
Que proíbes
E buscas a cura
No deleite da paisagem
Arredio

És genuíno
De atitudes e feitio
Se der para o torto
Não te coíbes
De te desforrar
Trágico

Não fazes esforço
Para agradar
Quem gostar, fixe!
Quem não gostar
Que se lixe!
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2009/02/22

Passeando


Quando ando por aí
Ver o mundo bem tento
Quase que de tudo já vi
Só me falta ver por dentro
.
Figas de saint pierre de lá buráque, Gondomar
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Bem-vindo


Semanas seguidas
De chuva, chuvisco
Morrinha, aguaceiro
E de ti, nem sinal
Chuvadas batidas
A vento forte
Queda de neve, granizo
E o mar tão arisco
Num prenúncio de morte
Afogamento, naufrágio

Tudo fazia crer
Um mau presságio
Acabara-se o paraíso
Não havia salvação
Para o reino animal
Nunca mais ias nascer
Sumiras-te de vez
Em manhã de nevoeiro
Tal qual o Sebastião
Lá nos reinos de Fez

Mas, eis-te de volta
Radiante e quente
Ofuscante, glorioso
Teus raios à solta
Aquecem a terra
Envolvem a gente
Os campos, a cidade
Os rios e a serra
Adquirem a cor natural
E transpiram felicidade

Ó sol maravilhoso
Porque não fazes assim
Para aniquilar o mal
Onde houver uma guerra
Impões uma ditadura
Finges-te de morto
Fica logo noite escura
Sem estrelas nem lua
E só voltas a brilhar
Quando a guerra acabar
.